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Humberto Werneck
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Torrentes de fel

A certa altura de seu Novo Diário, Eduardo Frieiro conta que finalmente leu aquelas histórias que os “mandarins da crítica” vinham incensando - e, “um pouco contra a vontade”, se junta ao coro dos que louvavam a obra de estreia de Guimarães Rosa. “Sagarana é um livro excepcional”, concede ele, reconhecendo no estreante “um estilista diferente e novo”. 

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2015 | 02h00

Não se iluda, porém, o leitor dos cadernos que o afiado e refinado escriba mineiro cobriu de anotações entre 1942 e 1949: nas quase 400 páginas do Novo Diário, o elogio a Sagarana é uma rara ilha de benignidade. O mais, ali, é fel, fel em estado puro, copiosamente derramado sobre tudo e todos. Sobre o próprio Frieiro, inclusive. “Os homens em geral não prestam para nada, e não quero nenhuma exceção para mim”, admite ele - e cai de joelhos no milho: “Toda vez que faço exame de consciência, digo para mim mesmo: ‘És um canalha’”.

Mas convém não tomar ao pé da letra tudo o que Frieiro diz, por mais categórico que possa parecer. “Mudo de ponto de vista com grande agilidade mental”, avisa esse provocador visceral, apresentando-se como um “dogmático contra os céticos e cético contra os dogmáticos”. 

Em política, por exemplo, Frieiro foi assumidamente fascista e flertou com a esquerda, sem jamais aderir a qualquer ismo. “Vacilo sempre e continuo vacilando”, reconhece. “Sou um homem sem religião, sem Deus, sem partido, sem pátria.” Toda forma política lhe parece “necessariamente má”, já que “o Estado é por força uma camorra das classes dominantes”. Apoiaria um governo que garantisse uma “relativa liberdade sexual” - com o inconveniente, porém, de que “desapareceria o pecado, com todos os seus atrativos”. 

Frieiro acredita que “nada justifica os preconceitos de raça” - mas crê também que “preconceitos de cor são humanos, inextirpáveis”, e “existem nos próprios indivíduos de cor”. Investe rudemente contra o “mulatismo” que a seu ver “invadiu e domina” os meios literários cariocas. “Tenho para mim que o movimento modernista de 1922 apressou a insurreição da mulataria dentro da nossa tradição literária europeia”, diz esse filho de imigrantes espanhóis, certo de que “muito influiu nisso o pernóstico Mário de Andrade”. O mal, sustenta ele, “não está nas produções mulatas, mas no mulatismo como atitude mental”. Os negros, “inferiorizados quase sempre, ainda se toleram. Mas os mulatos... Positivamente, a mulataria estraga o Brasil”.

Ante certos alvos, porém, Frieiro não vacila. Em especial os “literatos”, contra os quais desfere cacetadas a cada passo do Novo Diário. “Gosto das letras”, distingue, “mas não dos literatos”, essa gente “pouco amável, feia, vã, invejosa, cheia de melindres, irritadiça e irritante”. Ainda assim, tornou-se membro da Academia Mineira de Letras - quem sabe para fustigá-la mais de perto. “Noto que só os imbecis me felicitam pela minha próxima entrada para a AML”, constata ele. Empossado, conclui que o único “sintoma de vida” na entidade é a fartura de defuntos: “Só se fala nela quando morre algum acadêmico”, registra, e “morre-se demais na Academia”. Acompanha um corpo ao cemitério - e, na volta, critica a humanidade em geral: “Que mania, essa de armazenar os mortos!”.

A geração de Carlos Drummond de Andrade, que se seguiu à sua, e que Frieiro tanto alfinetou como ajudou, é tratada como “Grupo dos Jovens Literatos Oficiais”, visto que vários de seus integrantes se dependuravam em secretarias do Estado. Casado com a filha do governador, Fernando Sabino é um “príncipe consorte”. No Rio, Aníbal Machado e José Lins do Rego são fiéis de uma “igrejinha literária”, ao lado de outros “grã-finos de porta de livraria”. Forasteiros que o prefeito Kubitschek convida para visitarem Belo Horizonte não passam de uns “bundas-sujas” da literatura.

Incapaz de domar a peçonha que trazia nas veias, Frieiro não poupava nem os amigos. Encrencado com mulher casada, nos anos 1930, o cronista Moacir Andrade, de quem era íntimo, se abriu com ele em confidências. Frieiro ouvia - e, na moita, escrevia um romance, O Cabo das Tormentas, no qual o amigo irá transparecer nos traços de Sesino de Souza, um destruidor de lares. 

Frisson nos meios literários da então provinciana capital mineira. Mas onde muitos veriam motivo para sacar uma pistola, Moacir sacou, também ele, um romance - e adivinha quem lhe serviu de modelo para o rabugento, intratável Everardo Loureiro de Memórias de um Chauffeur de Praça... 

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