Torcida

Os "founding fathers", fundadores da República americana, tinham que escolher: presidente eleito pelo Congresso ou por um colégio eleitoral inspirado (mais ou menos) no modelo alemão de príncipes eleitores. O que decididamente não queriam era o voto popular, um cidadão um voto, para impedir que a nova República se submetesse ao que um deles chamou de "tirania da massa". Queriam, portanto, democracia mas não demais.

O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2012 | 02h11

Fato curioso, tornado irônico pela História: uma das razões para escolher o colégio eleitoral - cada Estado com um número de "príncipes eleitores" proporcional à sua população - foi a preocupação com os Estados do Sul da federação, onde grande parte da população era de escravos negros, obviamente sem direito a voto. Com o colégio eleitoral os negros contavam como população, garantindo uma representação justa da região no processo eleitoral, mas não como votantes.

Outra curiosidade histórica, que só descobri agora num livro sobre De Gaulle. Este exigia que as forças francesas que tinham se mantido leais a ele durante a ocupação alemã fossem as primeiras a desfilar na Paris liberada. Negociou com o comando aliado, que concordou com suas reivindicação com uma única condição, imposta pelos americanos: que nenhum soldado negro marchasse com De Gaulle pelo Champs Elysées. As forças americanas mantiveram-se segregadas durante toda a Segunda Guerra Mundial e frequentes brigas entre soldados brancos e negros, os chamados "race riots", quase não entraram nas histórias oficiais do conflito.

A eleição de Barak Obama e sua possível reeleição (estou escrevendo sem saber nem como foram as pesquisas pós-pleito) teriam acontecido numa América pós-racial, mas tantos anos de preconceito e discriminação não se diluem numa geração. Nenhum dos ataques e contra-ataques entre os candidatos, numa das campanhas eleitorais mais violentas da história americana, tocou no assunto raça, a não ser em alusões veladas, mas só o contraste entre a brancura iogurte do Romney e a cor do Baraca já é uma declaração política. Contam que o Stevie Wonder, depois de ouvir elogios a ele e a Ray Charles, que teriam vencido na vida apesar de cegos, teria dito: "E o Ray Charles, além de tudo, é negro". Tudo que a direita vitriólica americana chamou o Baraca nestes últimos quatro anos - muçulmano dissimulado, maldito socialista, etc. - poderia terminar com a frase implícita: e além de tudo, é negro.

Não preciso dizer que ontem passei o dia torcendo por mais quatro anos para o Barack Obama.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.