Toquei a sumaúma, árvore de 500 anos

Ao acordar cedo, porque madrugo, ia para a varanda do camarote. As manhãs eram cinza, carregadas de nuvens e eu pensava: não pode chover hoje. Depois, vinha o sol. E que sol! Olhava para a frente e dava com a margem distante, uma fina linha. Olhava para a direita e para a esquerda e tudo o que via eram as águas escuras do Rio Negro correndo mansamente.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2012 | 03h09

As aulas de geografia estavam distantes, tinha me esquecido de que Manaus fica no Rio Negro e que este se dirige ao encontro do Rio Solimões para formar o Amazonas. Ansioso por ver essa união, mas não adiantava, o jeito era esperar, veríamos o encontro das águas somente no último dia. Pela minha cabeça passavam imagens, eu visualizava Marcio Souza e Milton Hatoum brincando por aqui na infância. De que brincavam? O que significa ter crescido nesta paisagem avassaladora? Como imaginar que estes lagos imensos, na "seca", desaparecem e restam extensões de areia? Tudo é mistério para minha cabeça paulista.

Apesar de estar em plena cheia, com o nível das águas muito alto e ter cidades inundadas, populações em estado de calamidade, o rio flui tranquilo, sem atropelos. Ou assim se comportou apenas nestes 300 quilômetros em que navegamos para lá e para cá? Nesta semana em que participei do Navegar É Preciso, uma criação da Livraria da Vila, invenção do Samuel Seibel, me dei conta de como somos ignorantes em relação ao Amazonas. Tão ignorantes quanto esses que redigiram e aprovaram o novo Código Florestal, que a presidente deveria vetar, num gesto de sabedoria e amor à pátria. Aliás, os que redigiram e aprovaram não são ignorantes, são espertos, manobradores e safados em relação ao Brasil.

Quando me perguntam o que devo à literatura, respondo: o conhecimento do País. São meus livros e escritos que me têm conduzido incessantemente da embocadura do Parnaíba no Piauí, a Rio Branco no Acre, a Passo Fundo, RS, Joinville, SC, Votuporanga ou Igarapava, SP, e assim por diante. Por toda parte, a nossa realidade multifacetada. Salipis, Flipiris, Flips, Jornadas Literárias, Bienais, feiras. No entanto, Navegar É Preciso é um evento diferenciado. A cada dia, enquanto o barco desce ou sobe o rio, escritores se revezam em conversas, depoimentos, debates, perguntas e respostas diante de centenas de pessoas.

Como ninguém sai do barco, o convívio prossegue durante o dia, no restaurante, nos almoços e jantares preparados por chefs, ou no deck superior no fim da tarde, com um lanche leve e aperitivos, ou à noite (e foram noites de luar), quando bebidas geladas amenizavam os lamentos do corpo diante daquele calor úmido.

No Iberostar Grand Amazon, um minitransatlântico de quatro andares, éramos Walter Hugo Mãe, Edney Silvestre, Nilton Bonder, Clarice Niskier, e eu, nos revezando. Ou seja, entrevistei Walter Hugo, e ele entrevistou Edney. Edney me entrevistou e Clarice entrevistou Nilton Bonder. Duas vezes Clarice nos seduziu. Quando fez uma leitura dramática de Eu Matei Sherazade e quando representou A Alma Imoral, de Bonder, que nos obriga a pensar e repensar sobre vida, alma, tudo. No fim da semana, um pocket show dos Barbatuques que nos cativou. Música sem instrumentos, apenas com as mãos, o corpo, a boca.

Todos puderam falar de sua obra, personagens, vida, memórias, manias, alucinações, fantasias, ao mesmo tempo que o público perguntava, questionava. Em dois dias de viagem, todos já tínhamos a sensação de que éramos um grupo de amigos e parentes de longa data. A literatura nos torna amigos e parentes com quem convivemos ao longo da vida.

Em todas as refeições, peixe. Costelas de tambaqui, e pirarucu, tucunaré, matrichan, grelhados, assados, fritos, em caldeiradas, com sucos de cupuaçu, graviola, manga ou dezenas de outros. Na última noite, quando a melancolia da partida se entremostrava, lagosta a termidor e vinho branco espanhol. Mas havia carnes, saladas, massas, o que se pensasse. E pimentinhas das boas.

Nos intervalos as lanchas, chamadas voadoras, nos conduziram pelos lagos e igapós (riachos que conduzem aos igarapés, que conduzem aos paranás, aos furos, aos igapós, a terminologia fluvial tem de ser aprendida) da região das Três Bocas, ou por Trincheira, ou a Praia do Tupe, ou em Nova Airão, onde vimos os botos cor-de-rosa vindo comer na mão de meninas. Somente ali compreendemos o mito do boto, sua intocabilidade, quase divindade. Vimos pássaros e animais de todos os tipos, uma fauna que vive no alto das árvores, vimos os olhos dos jacarés à noite. Antes de atingir a sumaúma, uma árvore de cinco séculos, imponente como uma catedral. Toquei o tronco e nesse momento meu avô José Maria me veio à mente, ele teria chorado, era marceneiro. Ficamos esmagados - mas não de maneira desagradável, por paradoxal que seja - diante de uma árvore desta, majestosa. Como se pode passar a motosserra numa majestade assim sem sentir nada?

Certa tarde, Samuel nosso guia, parou junto a uma vegetação fechada no Rio Ariaú, próximo ao hotel do mesmo hotel que fica encravado dentro da selva. Silenciado o motor, uma folha se abriu e surgiu a cabeça de um macaquinho amarelado. Saltou para dentro da lancha. Em minutos, tínhamos macacos-cheiro (ou macacos Jupira) por toda parte, em nossas cabeças, ombros, colos. Foi lindo ver macaquinhas que recém-pariram com filhotes minúsculos agarrados às costas, enquanto saltavam e guinchavam. O guia lhes deu bananas. Somente os guias podem fazer isso. Somos proibidos de alimentar qualquer animal ou pássaro. Assim como ao andar pelas trilhas não podemos colocar as mãos nos troncos (e se houver uma taturana? Uma aranha?), agarrar cipós que pendem ao nosso lado, arrancar galhos ou folhas.

Em Nova Airão, na Fundação Almerinda Malaquias, uma ONG que faz as vezes de Senac, ensinando ofícios e artesanato às crianças, sem auxílio governamental (ali nem dá voto, nem há chance de desviar dinheiro, a instituição tem endereço e trabalho), dezenas de crianças mexem com todo tipo de material e preparam-se para o futuro. A Velha Airão foi tomada e destruída pelas formigas, seus habitantes tiveram de se mudar. Na Fundação, os galpões cheiravam a serragem, tocos de madeira por toda parte, serras de fita, instrumentos de marceneiro, plainas, arcos de pua. Súbito me vi na infância, na oficina de marcenaria de meu avô, José Maria. O passado vem nos buscar onde quer que a gente esteja.

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