Toque preciso de András Schiff na Sala São Paulo

Músico deixa a plateia eletrizada com as sonatas finais de Haydn, Beethoven e Schubert

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2012 | 03h08

Em seu livro O Estilo Tardio, Edward Said pergunta: "Ficamos mais sábios com o passar do tempo? Haverá uma sensibilidade e forma peculiares à última fase da carreira de artistas que chegam a uma idade avançada?".

A noção de que as obras finais constituem testamentos dos que estão prestes a morrer só se sedimentou no romântico século 19. Até então, diz a musicóloga Karen Painter, "a admiração mirava nos artistas de vida curta ou que mantiveram nas obras da maturidade as características das obras-primas da juventude". Em 1860, o teodolito mudara. Painter cita Jacob, um dos irmãos Grimm célebres pelas histórias infantis. Aos 75 anos, ele dizia que "quanto mais perto do túmulo, mais distantes ficam a timidez e a hesitação... corajosamente admitimos a verdade reconhecida".

A verdade reconhecida é a capacidade de, no estilo tardio, conviver com as contradições sem tentar inutilmente resolvê-las. No fabuloso recital do pianista András Schiff, nesta terça-feira na Sala São Paulo, o público testemunhou três respostas à pergunta de Said. Ele interpretou as sonatas finais de Haydn, Beethoven e Schubert, escritas entre 1794 e 1828.

Haydn "responde" com harmonia, serenidade e humor em sua sonata n.º 62. Os silêncios reveladores, as pausas propositalmente excessivas, as bruscas mudanças de dinâmica - tudo estava lá, no toque preciso e sanguíneo, vivíssimo, de Schiff. O detalhe mais refinado de sua interpretação foi o modo como recriou o humor de Haydn, "que toma conta da gente e nos domina", na expressão de Alfred Brendel. É humor criptografado, brinca com as regras não escritas da prática musical do tempo.

As duas sonatas restantes respondem a outra pergunta de Said: "O que dizer de obras tardias que não são feitas de harmonia e resolução, mas de intransigência, dificuldade e contradição em aberto?" Ele mesmo responde: o tardio é "uma forma de exílio". Ou seja, "o estilo tardio está no presente - ao mesmo tempo que estranhamente apartado deste". É por isso que a sonata opus 111 de Beethoven traduz a ideia trágica de que nenhuma síntese é possível.  

Schiff superou-se na 111. Desde os três acordes iniciais de sétima diminuída. "Juntos", diz num DVD em que analisa e toca a sonata, "estes acordes são os três pilares colossais de uma catedral representando as três possibilidades de acordes de sétima diminuída e nos dão os 12 sons possíveis em nossa música ocidental. Assim, temos aqui um precursor da música dodecafônica". Diz e prova tocando. Outro espanto é o andamento do início. Não é adagio, nem largo ou grave. "É maestoso", diz no DVD, e assim ele o toca. E cutuca colegas incensados: "Por que tantos tocam esta introdução tão lentamente? É uma boa pergunta, que não sei responder".

Schiff não acelera os trêmolos na mão esquerda imediatamente antes do Allegro con brio appassionato. Perfeitas as oitavas contrastando com o contraponto, sem de novo acelerar demais. Na imensa Arietta, Schiff injeta uma carga emocional poderosa. E num tema simples demais - dois intervalos, de quarta e quinta descendentes. Na masterclasse, ele o identifica com o tema da valsinha de Diabelli e com a melodia de ação de graças da Missa Solemnis, ambas compostas enquanto ele escrevia a 111. E a toca sem ralentar demais, o que faria o tema resvalar para o simplório. As variações encurtam os intervalos, abandonando o clima apolíneo e tornando-se dionisíaco, "chegando ao êxtase na terceira", diz na masterclasse (e como ele constrói bem estas transições). O obsessivo trilo não soa decorativo, mas expressivo, como deve ser. Eletrizada, a plateia, cheia de pianistas, acompanhou sem respirar o final da 111 - que, na verdade, como Schiff diz e mostra ao piano, "é um movimento que não termina, mas se evapora no ar". Felizmente, um silêncio de vários segundos separou o fim da performance e o início dos aplausos. Todos em silêncio. Raro momento de comunhão.

Como Beethoven, também Schubert teve consciência de que não dá para resolver as contradições, é preciso conviver com elas. A leitura de Schiff da sonata D. 960 esteve a milhões de anos-luz do canhestro Lang Lang meses atrás no mesmo local. Schiff não ralentou excessivamente o monumental Molto moderato inicial e muito menos acelerou o Scherzo. Iluminadamente nos levou a compartilhar com Schubert um turbilhão de melodias e modulações que se sucedem em impulsos aparentemente descontrolados - uma fascinante, contraditória e por isso mesmo riquíssima odisseia de 40 minutos.

No extra, a ária das Variações Goldberg. Desconfio que teremos de esperar vários anos até assistirmos a outra noite pianística tão excepcional.

Crítica: João Marcos Coelho

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