Toque original ao alcance de todos

Você não imaginava, mas é possível ouvir, com som estéreo de alta qualidade, compositores-pianistas da virada dos séculos 19/20, como Gustav Mahler, Camille Saint-Saëns, Richard Strauss, Gabriel Fauré, Claude Debussy e George Gershwin, entre outros. O crítico musical e produtor da revista especializada FonoForum alemã, Ingo Harden, fez uma preciosa caixa com 10 CDs que traz 24 compositores tocando as próprias obras ao piano (disponível na www.amazon.fr por 35 mais frete).

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

Dá arrepios ouvir Debussy provando que toca piano de modo tão suave, como se não tivesse martelos, em sua deliciosa Children"s Corner; ou então Mahler em carne e osso interpretando alguns de seus lieder. Que milagre é este, já que nas duas primeiras décadas do século 20 a tecnologia nascente de gravação e reprodução fonográfica apresentava resultados ruins?

O caso é que, enquanto o gramofone de Thomas Edison avançava a passo de tartaruga, uma tecnologia alternativa conquistou os consumidores de música gravada com uma proposta de qualidade. Entre 1904 e 1925 os chamados piano rolls eram uma febre de consumo dos que desejavam ouvir música com sonoridade decente. O slogan de vendas era: "Os dedos dos grandes mestres no seu piano."

Os rolls são rolos de papel que registram em papel perfurado o toque do pianista, e depois podem ser "tocados" em pianos especiais pisando-se apenas nos pedais pneumáticos. O artista assinava cada rolo e tinha sua foto estampada no início, para autenticação. Há poucos anos, os piano rolls de Gershwin fizeram furor porque reproduzem, em tese, o toque original do pianista em condições técnicas excepcionais. Para nós, hoje, é como se compositores-pianistas e virtuoses como Guiomar Novaes, por exemplo, tivessem gravado, num passe de mágica, em moderno estúdio digital.

Os primeiros piano rolls e pianos especiais foram vendidos na Alemanha em 1904, pela Welte-Mignon. Com ela logo passaram a competir empresas americanas: Duo-Art, da Aeolian Company, e Ampico, da American Piano Company. No auge dos piano rolls, apenas a Duo-Art vendeu 192 mil pianos especiais nos EUA. Havia até concertos públicos, recitais de lieder em que a cantora se acompanhava ao piano roll, inclusive recitais para duos de pianos especiais reproduzindo piano rolls. Visualmente a coisa é meio surrealista, porque as teclas abaixam e levantam sozinhas.

A vantagem é a qualidade da reprodução. Podemos ouvir Mahler, Richard Strauss ou Saint-Saëns num autêntico Steinway de concerto cauda inteira ou então num Bösendorfer. Desvantagens: segundo os críticos, perdem-se as sutilezas, o som fica mais chapado, as dinâmicas esmaecem.

Na época, as opiniões eram bastante favoráveis. O compositor francês Darius Milhaud, que gravou piano rolls, era um entusiasta da novidade: "Ele reproduz com igual rigor os menores detalhes e maneirismos do artista." O lendário maestro Arthur Nikisch considerava difícil acreditar "que o artista não está presente, tamanha a perfeição".

Nos anos 60/70, quando já se dispunha da tecnologia do LP estéreo em todo o seu esplendor, o pianista Arthur Rubinstein ouviu seu ídolo, o pianista-compositor Ferruccio Busoni (1860-1924), pilotando um piano roll. Detestou: "É uma caricatura." O pianista Benno Moisewitsch (1890-1963) chegou a ouvir, em 1962, gravações de piano rolls que fizera 40 anos antes. Sobre algumas, achou uma estupidez; a respeito de outras, considerou-as muito fiéis à sua interpretação.

Os piano rolls desapareceram no fim dos anos 20, com alguns avanços do gramofone, mas sobretudo devido à ascensão do rádio.

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