Toque de Midas e a reinvenção da roda

"Está surgindo uma TV diferente", diz o novo slogan da TV Cultura. Diante da proposta, era lícito esperar que Roda Viva, o mais antigo programa de entrevistas da televisão brasileira, um dos únicos da TV aberta, ao menos se reinventasse.

Crítica 2: Silvio Mieli, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2010 | 00h00

Ao som de uma versão da canção Roda Viva, de Chico Buarque, em ritmo de abertura de telejornal, o impacto inicial do programa foi semelhante à sensação causada pelos primeiros comerciais levados recentemente ao ar pela própria TV Cultura. Ou seja, uma nítida impressão de inadequação do formato perante a natureza pública do veículo.

A nova apresentadora, a jornalista Marília Gabriela, condutora de outros programas de entrevistas (no SBT e no GNT), também atriz e cantora com hiperexposição midiática, estava acompanhada pelos colegas Augusto Nunes (Editora Abril) e Paulo Moreira Leite (Editora Globo), guindados a apresentadores fixos, e mais duas jornalistas convidadas, respectivamente do Grupo Estado e do jornal O Globo, além do cartunista Paulo Caruso.

O formato inquisitorial e intimidatório do círculo foi reduzido a um semicírculo mais intimista. Todos estão agora no mesmo plano e mais próximos. Só que pulamos da arena em desníveis do antigo esquema para um cenário sóbrio e impessoal, inspirado na pseudoneutralidade dos telejornais. Nada de painéis de artistas convidados ou inovações cenográficas, como nos últimos anos do Roda Viva.

Intocável. Na era do tudo ao vivo e em tempo real, o programa é pré-gravado, sem participação de telespectadores ou internautas. Mas num aspecto fundamental o programa manteve-se intocável. O Roda Viva sempre revelou muito mais sobre quem pergunta do que propriamente aprofundou aspectos dos personagens sentados no centro da roda. O caso da entrevista com o fotógrafo Oliviero Toscani, até hoje das mais comentadas, é paradigmático. Levado ao ar em 1995, quando Toscani veio a São Paulo divulgar uma exposição da Benetton, o programa sintetizou o imaginário do programa. Na entrevista com Toscani, publicitários inquiridores diziam ser mais famosos do que o entrevistado. Já os jornalistas perguntaram se as suas campanhas agressivas tinham origem numa infância infeliz e um editor de revistas para VIPs acusou Toscani de atacar a fé cristã - através de um outdoor no qual um padre beijava uma feira.

Desde o início do programa repaginado, a apresentadora enfatizou que estava diante de um homem diferente dos simples mortais. O magaempresário Eike Batista foi apresentado como uma espécie de Midas brasileiro, o qual tudo o que toca vira ouro puro. Alguém que depois de ficar conhecido como o "filho" (de Eliezer Batista) e "o marido" (da modelo Luma de Oliveira) "foi à luta" e cujo "nome é seu melhor cartão de visitas". Exploraram-se muito as relações entre o empresário e os governos Lula e FHC, mas prevaleceu a máxima de qualquer programa de entrevista com empresários em grandes redes: a de que o setor privado é mais eficiente que o setor público (uma bela metáfora para a atual fase da TV Cultura). "Não seria importante investir na cultura?", indagou a repórter de O Globo. "Produzi seis filmes. Quem pagou a conta do 5 Vezes Favela ?", retrucou Batista.

Ao fim e ao cabo do programa, todos se disseram satisfeitos. Mas quem esperava ver nascer "uma TV diferente" ficou com a sensação de ter perdido uma grande oportunidade de discutir os desdobramentos da mineração no Brasil, um dos setores mais agressivos ao meio ambiente e de maior impacto na vida das populações indígenas. Num país com escassez de debates, ainda mais nessa área da economia, talvez fosse o caso de abrir a roda para uma outra lógica, menos viciada nas mesmas fontes de informação e mais adequada a uma rede pública de televisão. Para se reduzir ao formato de um talk show com entrevistadores fixos não precisavam reinventar a "Roda".

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