Toque de classe na música brasileira

Já escrevi sobre a surpresa que tive ao ouvir no cinema a bela inglesinha, que é Keira Knightly, numa cena no metrô de Londres, sob pesado bombardeio alemão durante a guerra, cantando deliciosamente o tema musical de Ódio no Coração, composto por Alfred Newman. Uma das músicas de minha vida! E agora minha querida amiga Tereza Vasquez me traz de presente um DVD com exatamente essa paradisíaca história dos mares do sul, comoção de minha juventude.

GILBERTO MENDES, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2010 | 00h00

Oceânica, devoradora, uma história que me seduziu de maneira incomum: fiquei literalmente apaixonado pela Gene Tierney naquele papel de uma adorável nativa de olhos claros, cor do céu. Coisas que só pode entender gente ligada ao mar, a Conrad, Somerset Maughan, como somos eu, a amiga Tereza e um inesquecível companheiro de andanças musicais que já partiu para sua derradeira viagem. Sim, estou falando do compositor José Antonio Almeida Prado, nascido em Santos, "porto mítico, cidade de forte vanguardismo cosmopolita, que iria definir seu futuro universalismo estético", conforme bem explica o escritor Flávio Amoreira. Onde ele viveu por um largo tempo, no feérico, trepidante Gonzaga, do saudoso Parque Balneário Hotel, e também do aristocrático solar da sua família, "paulistas de 400 anos", renomados exportadores de café.

E um dia, quem me pergunta se poderia levar à minha casa certo jovem compositor que gostaria muito de conversar comigo? Sempre Tereza, no seu eterno elan de costurar ligações culturais. Já o conhecia de vista, e de nome, como um dos mais promissores alunos de Camargo Guarnieri. Nossa intimidade foi imediata, o que acontece com velhos marinheiros, apesar de eu ser vinte anos mais velho. Como ainda bem observa Flávio Amoreira, "unía-nos o sentimento atlântico do mundo, que nos torna brasileiros da costa, abertos a experimentos que nos chegam como exotismos flutuantes."

Mar, belo mar selvagem de nossas praias solitárias, escreveu Vicente de Carvalho em uma de suas canções praieiras. Era o que nos irmanava, desde o começo de nossa amizade. Mas havia uma pedra em nosso caminho, diria outro poeta. Almeida Prado queria apresentar uma obra sua no Festival Música Nova. Expliquei pacientemente que teríamos o maior prazer, mas ele precisaria mudar a linha estética que vinha seguindo. A ansiedade sua era tal que ele mudou, rapidamente, compondo uma peça para violino e piano já dentro da linguagem musical que caracterizava nosso festival. Uma ruptura fatal que iria mudar fundamentalmente o que ele iria compor dali para a frente.

Muito gentilmente, Almeida Prado gostava de dizer que estudou comigo. Não é verdade, ele não precisava disso. Eu é que deveria ter estudado com ele, já que, na verdade, estudei pouco música, comecei tarde. Ainda componho de ouvido, muitas vezes. O que eu fiz foi colocar todos os meus livros, revistas e partituras à disposição dele. Além de conversarmos muito sobre música, o que muitas vezes funciona como verdadeiras aulas. E neste caso, eu também aprendi muito com ele.

Grande conversador, era delicioso seu humor, suas provocações, a finura com que compreendia a natureza musical de seus amigos. Tanto ele como eu tínhamos muita atração pelas citações, pelo kitsch musical cinematográfico. Uma vez ele me deu de presente um LP com as músicas do filme Rapsódia, grande sucesso de público, insistindo para que eu fizesse uma sonata para piano e violino citando, como temas, as obras tocadas no filme pelos dois intérpretes que disputavam o amor de Elizabeth Taylor, um deles Vitório Gassman. Achava que fazia o meu gênero. Fiquei devendo.

Como colegas, iríamos nos encontrar algumas vezes em festivais de música no exterior. Não me esqueço daquela viagem muito louca de Madri a Toledo, num velho carro encrencado do saudoso compositor português Jorge Peixinho. Depois eu ainda me encontraria com Almeida Prado em Paris, só para algumas caminhadas pelo Boulevard Saint-Germain des Près e un café crème avec croissant no Les deux magots. Num restaurante em Colônia, Alemanha, lembro-me bem da sua ansiedade, recém casado, para conseguir falar pelo telefone com sua admirável esposa, a mãe futura de suas igualmente admiráveis filhas.

Só nos resta agora olhar para cima, como experientes comandantes, e através das "Cartas Celestes" de nosso saudoso amigo, descobrir por sobre quais ondas sonoras ele vai navegando, vai temperando, à espera dos amigos ...

GILBERTO MENDES É COMPOSITOR, CRIADOR DO FESTIVAL MÚSICA NOVA E AUTOR DE, ENTRE OUTRAS OBRAS, UMA ODISSEIA MUSICAL (EDUSP)

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