Divulgação/Andrew Zaeh
Divulgação/Andrew Zaeh

Topetes, robôs e soul music

Janelle Monáe fala sobre o disco que foi unanimidade em 2010

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2011 | 00h00

Já há algum tempo, o disco conceitual é espécie em extinção no mundo pop. Culpa da superdosagem de informação nos tempos .com, do consequente déficit de atenção juvenil e da viabilidade de singles e EPs em meio a todo esse caos.

No entanto, 2010 viu boas exceções à regra. Dois dos discos que foram unanimidade entre críticos nacionais e internacionais no ano passado são costurados por narrativas musicais e temáticas. The Suburbs, do Arcade Fire, dessecou com canções pungentes a angústia e o tédio dos subúrbios norte-americanos. The Archandroid, que lançou a nova sensação da black music Janelle Monáe, buscou referências em Fritz Lang e no afro-futurismo de Sun Ra e Parliament Funkadelic para tecer uma narrativa de ficção científica.

Janelle vem ao Brasil esta semana para o Summer Soul Festival, que passa por quatro cidades do País e tem Amy Winehouse como atração principal. Seu disco passeia por uma miscelânea de gêneros - do funk soul, ao rock, ao punk, ao folk - para contar a história de Cindi Mayweather, uma androide que se apaixona por um ser humano e, por consequência, tem de fugir da polícia de um sistema parecido com o da ditadura de Big Brother, em 1984, de George Orwell. A dificuldade em classificá-lo, se tratando de um disco tão sólido, é o que chamou a atenção da crítica: o que seria um pot-pourri ganhou forma e sustância com a história e a estética que acompanham. Lembra Metrópolis, de Lang, e a música coproduzida pelo brilhante rapper Big Boi, do duo Outkast, é calcada no soul refinado de Michael Jackson, Quincy Jones e Stevie Wonder. Nos clipes que atraíram atenção ao disco, de Cold War e Tightrope, Janelle dança e atua com destreza, numa confluência de talentos que lembram os velhos mestres do show biz. Para explicar melhor o disco, a cantora conversou com o Estado sobre as suas metas e escolhas criativas.

The Archandroid passa por diversos gêneros, tem narrativa de ficção científica e a peça central é você, que canta, dança e atua em seus clipes. Como desenvolveu essa multiplicidade de talentos?

Não revelo nada sobre como faço as coisas. Só posso dizer que faço música por inspiração divina. É o que o meu criador me intuiu a fazer: sons para trazer energia positiva às pessoas. E está funcionando. As pessoas estão captando a mensagem. Quanto às referências estilísticas, elas estão lá. Não precisam ser comentadas. Quem souber do que estou falando entenderá.

The Archandroid tem narrativa de amor e libertação. Como você se relaciona pessoalmente com essa história?

A protagonista Cindi une as pessoas. A história dela, e dos androides, é igual à de muitas pessoas.

E os androides são uma metáfora para quê?

Quem disse que eles são uma metáfora? Há androides por todas as partes. Logo eles serão programados para reagir emocionalmente como humanos. Não conseguiremos diferenciá-los. Então, a pergunta que faço é como nos comportaremos quando estivermos tão integrados.

A miscelânea coerente de gêneros é o grande trunfo do disco. Como surgiu a ideia de um disco tão variado?

É o trabalho de um mágico.

E a colaboração com Big Boi, que sempre teve uma paleta variada em suas produções, não teve nada a ver com isso?

Você está insinuando que há alguém me dando ordens?

Não. Quero saber como se dá o processo criativo de um resultado musical tão interessante.

Eu vou aonde quero. Não estou confinada a nenhum gênero. Minha música tem essa flexibilidade, essa agilidade.

E como você se encaixa nesse soul revival, do qual faz parte não só Amy Winehouse, que encabeça o festival, mas também Sharon Jones, Budos Band e outros?

Não me encaixo. Não posso falar sobre outros artistas, mas também não acho que estão tentando recriar algo.

Você vem de um bairro de classe média de Kansas City e seu pai teve problemas com drogas durante sua infância. Como isso influenciou o rumo de sua carreira?

Isso me fez querer ser as drogas, causar o efeito entorpecente que elas causam.

FLORIANÓPOLIS

Stage Music Park - Pachá. Sáb. (8), 22 h. R$ 350/ R$ 600

RIO DE JANEIRO

HSBC Arena. Av. Embaixador Abelardo Bueno, 3.401. 2ª (10) e 3ª (11), 20h30. R$ 180/ R$ 700

RECIFE

Pavilhão do Centro de Convenções de Pernambuco. 5ª (13), 21 h. R$ 200/ R$ 300.

SÃO PAULO

Arena Anhembi. Dia 15, 18 h. R$ 200/ R$ 500.

Informações e ingressos: www.livepass.com.br;

tel. 4003-1527; www.ingressorapido.com.br

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