Topa tudo por dinheiro

Uma semana após Trabalho Interno ganhar o Oscar denunciando a impunidade dos responsáveis pela crise de 2008, Rajat Gupta, ex-executivo da Goldman Sachs pode ser preso por ‘insider trading’

IVAN MARSIGLIA,

05 de março de 2011 | 10h27

 

Foi com ar sério, econômico em palavras, que Charles Ferguson agradeceu o prêmio de melhor documentário concedido a Trabalho Interno - filme que derrotou o “quase brasileiro” Lixo Extraordinário. “Três anos após uma terrível crise financeira causada por uma fraude maciça, nenhum executivo foi para a cadeia”, disse o diretor, no palco da cerimônia do Oscar. Ferguson conquistou a Academia de Hollywood com um documentário implacável sobre os operadores de Wall Street que quebraram as bolsas do mundo inteiro, provocaram demissões em massa e jogaram 50 milhões de pessoas para baixo da linha da pobreza em 2008.

Já vimos esse filme antes, de poderosos que escapam à justiça dos homens, mesmo em um país de instituições fortes como os Estados Unidos. Mas há sinais de que a coisa pode ter começado a mudar na última terça-feira. A Securities and Exchange Commission (SEC), comissão de valores mobiliários que regula o mercado financeiro nos EUA, acusou um alto executivo do Goldman Sachs de ter vazado informações privilegiadas sobre companhias nas quais trabalhou para um fundo de hedge. O indiano Rajat Kumar Gupta também atuou na companhia Procter & Gamble e na consultoria McKinsey e teria favorecido ilegalmente o Galleon Group, do cingalês Raj Rajaratnam - imigrante bem-sucedido como ele, operando em Nova York.

Gupta, de 62 anos, fez carreira fulgurante no mundo dos negócios em seu país de adoção. Nasceu em Calcutá, filho de um jornalista que chegou a ser preso por defender a independência da Índia e de mãe professora. Quando o pai levou a mulher e os quatro filhos para Nova Délhi, a fim de fundar o diário Hindustan Standard, Rajat mal entrara na adolescência. Ficaria órfão em poucos anos: aos 16, perdeu o pai; aos 18, a mãe. Ainda assim, aluno brilhante, pôde cursar engenharia mecânica no Indian Institute of Technology, de onde se candidatou para um MBA na prestigiosa Harvard Business School, nos EUA, em 1971.

Dois anos depois, recém-saído de Harvard, era contratado pela McKinsey. Levitou rapidamente nas posições da empresa até se tornar o primeiro não ocidental a dirigir a firma, de 1994 a 2003.

Mas o prodígio indiano, que chegou ao nirvana no ranking dos dez consultores globais mais importantes de 2000, não limitou sua carreira à iniciativa privada. Um típico self-made man, chegou a ser nomeado consultor administrativo das Nações Unidas pelo secretário-geral Kofi Annan. Ao mesmo tempo, revelava-se um dos operadores mais produtivos do cassino do crédito fácil e notas superfaturadas de “graus de investimento” que colapsou fragorosamente há três anos.

Uma das acusações a Gupta feitas pela SEC diz respeito a US$ 5 bilhões que o fundo Berkshire Hathaway, do megainvestidor Warren Buffet, aplicaria no Goldman Sachs em 2008. O executivo indiano teria telefonado a seu colega do Galleon Group instantes depois de uma teleconferência interna do Goldman a fim de avisá-lo da intenção de Buffet.

A comissão de valores mobiliários norte-americana afirma que, um minuto após esse telefonema, Rajaratnam adquiriu 175 mil ações do Goldman para revendê-las no dia seguinte, assim que a informação tornou-se pública. Só nisso, o Galleon obteve um lucro ilícito de US$ 900 mil. Operações do tipo, a partir de informações privilegiadas, deram ao fundo de hedge - no qual o empresário indiano teria participação - lucros superiores a US$ 50 milhões. “Gupta foi honrado com a mais elevada confiança por parte de grandes empresas e a traiu, desvendando seus mais sensíveis e valiosos segredos”, disse Robert Khuzami, diretor da SEC, no despacho divulgado pelo New York Times.

Diagnósticos sob encomenda. Trabalho Interno, de Charles Ferguson, é pródigo em personagens que saltam de um lado para outro do balcão. Executivos de megacorporações que assumem a chefia de órgãos reguladores da atividade econômica, diretores de bancos centrais que pulam alegremente para a iniciativa privada, retornando no momento seguinte ao Federal Reserve, professores universitários que descrevem conjunturas econômicas remunerados a peso de ouro por setores interessados em suas análises. Não fica pedra sobre pedra nem em relação a ícones da credibilidade acadêmica como Harvard e Columbia. É fácil entender por que tão poucos especialistas conseguiram prever a crise.

O advogado de Rajat Gupta, Gary Naftalis, cujos honorários estão entre os mais altos de Nova York, alega que as acusações a seu cliente são “totalmente sem base”. Assim como, poder-se-ia dizer, eram os fundamentos da grande bolha de progresso que se seguiu ao ciclo de desregulamentação da economia iniciado por Ronald Reagan nos anos 1980. A resposta quem vai dar é a Justiça. Ou não.

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