Tony Brandão: o rei da 5ª. série ataca na TV

No primeiro livro do paulistano Toni Brandão, Nanica, Minha Pequena Irmã, um personagem pré-adolescente se recusa a crescer. Um encontro com o autor causa a mesma impressão ao observador. À semelhança de suas criaturas, Brandão tem o figurino e a linguagem dos tipos retratados em 13 obras escritas ao longo da última década. Aos 40 anos, ele veste e se comporta como um garoto cheio de curiosidade em conhecer o mundo. A rejeição a explicar taxativamente a personalidade pré-adolescente e o temperamento de aprendiz explicam em parte o grande sucesso junto ao público formado por garotos e garotas de 9 a 12 anos, para o qual escreve.Brandão é um best seller nessa faixa etária, que consome suas histórias com o mesmo apetite que devora Big Macs. Já vendeu 450 mil livros, o suficiente para coroá-lo como o rei da 5ª série, ano escolar que agrupa seus leitores mais fiéis. Mas não é o suficiente para ele. Adaptou cinco de suas obras para o teatro e chegou à final do Prêmio Sharp de Música com o CD Tutu, o Menino Índio, seu oitavo livro, história de iniciação de um curumim narrada por Rita Lee. Há dois anos, Brandão foi convidado pela Globo para escrever os seriados Irmãos em Ação e As Aventuras de Zeca e Juca. Atualmente está às voltas, ao lado de outros três roteiristas, com o desafio de verter novamente para a emissora o Sítio do Picapau Amarelo, da obra de Monteiro Lobato, grande suceso nos anos 70 dirigido por Geraldo Casé. Brandão faz questão de desmentir os boatos sobre uma adaptação hightech, com Pedrinho e Narizinho grudados na tela do computador enquanto Tianastácia prepara bolinhos no microondas. "Isso é um absurdo. Lobato tem elementos de imaginação fantásticos. Vamos ser fiéis à obra. Haverá apenas algumas mudanças na linguagem, mas sem banalizar ou vulgarizar", diz Brandão, sentado no sofá do apartamento onde mora na Zona Sul de São Paulo. Trajando moletom verde e calçado com tênis colorido, ele é ágil e inquieto como um skatista. Fala rápido. Às vezes solta um palavrão, seguido de um "por favor, não vá publicar isso". O trabalho de adaptação na Globo, previsto para estrear em outubro, o fez interromper outras atividades temporariamente, como a finalização do roteiro de seu livro de maior sucesso, Cuidado: Garoto Apaixonado, para o cinema, e a produção de nova obra. A rotina também foi alterada. Brandão virou freguês da ponte-aérea, voa para o Rio pelo menos uma vez por semana. Paixões de garotos - Mas procura cumprir a agenda de visitas a escolas, nas quais discute os temas das histórias que conta e se abastece da linguagem juvenil que alimenta seu estilo. "Gosto de bater bola com a galera, sempe há troca positiva. Vou para falar, mas prefiro ouvir."O ouvido atento e um extremo cuidado de não colocar o ponto de vista do adulto para construir o personagem determinam a identificação entre autor e leitor. "O universo de um pré-adolescente é muito rico e cheio de aprendizagem. Ao contrário do que se diz, essa turma é muito crítica. Não dá para ser arrogante e dizer que é isso ou é aquilo."Antes de sentar para escrever o primeiro livro, Brandão notou que os autores infanto-juvenis se colocavam muito nos personagens. Além disso, tratavam apenas de temas graves como a Aids, criminalidade, gravidez e pobreza. "Acho esses assuntos importantes. Mas onde estava o garoto de classe média urbana e seus grilos?", perguntava-se.Ao falar dos problemas que afligem o ser humano naquela faixa etária, na qual ele não se identifica com as crianças nem com os adolescentes, o escritor encontrou um público ávido e carente e aproveitou para discutir questões importantes, como ética, rejeição, amor e fracasso. Em Cuidado: Garoto Apaixonado (75 mil exemplares vendidos em 15 edições), aborda o despertar do amor em um menino. Teve a idéia para o livro ao constatar um certo predomínio da visão feminina nas histórias infantis românticas. "Parece que a paixão infanto-juvenil só acontece com as meninas. Fiquei indignado com a ausência dos garotos. A explicação talvez seja que enquanto o amor das meninas se parece com uma comédia romântica, o dos meninos é uma mistura de show de rock com jogo de futebol. Os garotos são mais atrapalhados." Em sua obra mais recente, Caça ao Lobisomem, publicada em março, narra uma história de mistério e suspense para analisar a ética. O livro é dedicado a "todos os esquisitos". Brandão leva de quatro a cinco meses para colocar ponto final nas histórias. Não segue uma rígida rotina, mas prefere sentar-se à frente do computador à tarde, enquanto dedica as noites para leituras. Sua filiação literária? Uma mistura, diz, de J.P. Salinger, Machado de Assis e Lygia Bojunga Nunes. E Monteiro Lobato, "o mestre de todo mundo que escreve para o público infanto-juvenil", completa.

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