Tony Bellotto fala de violência e inquietação em novo livro

Em 'Os Insones', o músico dos Titãs conta história de menino que vai à favela em busca do pai biológico

Pedro Henrique França, da Agência Estado,

24 de setembro de 2007 | 14h41

Sai o detetive Remo Bellini e suas investigações, entra o insone Samora, de 19 anos, em busca de suas raízes e idealista de um mundo melhor. No lugar de São Paulo, cidade que serviu de pano de fundo para as tramas de Bellini - E a Esfinge, E o Demônio, E os Espíritos -, o Rio de Janeiro e a violência do morro carioca, com as guerras entre traficantes e policiais. No enredo, um jovem menino negro (Samora), criado no Leblon, vai à favela tentar encontrar o pai biológico e conhecer mais de perto as questões sociais que o cercam. Violência e tráfico de drogas são assuntos recorrentes nos cinemas desde a repercussão mundial de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e até mesmo na TV, como o seriado Cidade dos Homens, que ganhou, ainda, versão nas telonas. O titã Tony Bellotto queria transpor isso em uma obra literária, antes que alguém tivesse a mesma idéia. Assim, realizou Os Insones, seu melhor livro até então de sua (segunda) carreira como escritor, e que ele lança na quinta-feira, 27, em São Paulo, na Livraria Cultura. "Quando comecei a me interessar por esse assunto, me deparei com um tema muito manjado no cinema, na TV e tão visto nos noticiários, mas não na literatura, como ficção", conta Bellotto. Segundo ele, a proposta era mostrar os insones (inquietos que buscam mudar as problemáticas sociais) e sair do lugar-comum, "da menina de classe média que se apaixona por um cara do morro". Para isso, ele traz ao livro não apenas a história de Samora - há outros núcleos que recheiam a trama. O menino negro vai ao morro e lá se envolve com Mara Maluca, chefe do tráfico, meio mulata, meio índia. A branca Sofia, que mora em Ipanema e estuda com Samora, segue escondida atrás do menino pelo qual é apaixonada. Felipe é irmão de Sofia e colecionador de armas. O publicitário Renato, pai de Sofia e Felipe, se constata parte de uma burguesia medíocre e, com o desaparecimento da filha e os problemas de coluna, começa a repensar seus valores. De forma fragmentada, com os núcleos intercalados, Bellotto adota uma narrativa envolvente e ágil, que mescla bem os elementos reais e ficcionais, e que supera o suspense ao tratar de um assunto tão incensado no mundo das artes. O efeito de cortes, diz ele, foi proposital. "Para dar a manutenção do suspense", afirma. Outro recurso são as menções musicais. Em Bellini, a trilha sonora era o blues, mas nesta ocasião (adivinhe!) o rap permeia a narrativa, gênero que o escritor considera "uma expressão de inquietação". Bellotto admite: é difícil uma pessoa tão cercada de música não se permitir influenciar esse meio na escrita. Mas, garante ele, jamais escreve ouvindo música. "A música no livro acaba acontecendo naturalmente e serve de identificação para os personagens. Em Os Insones, a música foi muito importante e, de certa maneira, foi mais intencional do que no Bellini", relata. Enaltecer a rebeldia é algo que Bellotto faz com freqüência e que ele ressalta em seu livro com Samora. Para o escritor, a juventude dos tempos atuais anda um pouco perdida - e as manifestações apáticas. "É um elogio à rebeldia. Tinha que inventar um personagem que resgatasse essa inquietação", afirma. E continua: "Na minha juventude as posições eram muito claras, e da maneira como as coisas foram se conduzindo na História começou a se perder um pouco a figura do rebelde. Quis falar um pouco sobre isso no livro. Para mim, o ímpeto, como se vê em Samora, é o condutor das mudanças e deve ser elogiado". A inquietação de Samora carrega um sentimento do próprio escritor, não só com relação à apatia dos jovens de hoje, mas também com o incômodo pela violência constante. A escolha da capital fluminense para ser o cenário da trama retrata um pouco essa perturbação. "Nesses últimos anos, coisas muito intensas têm acontecido no Rio, a violência e o conflito das classes sociais, como uma espécie de terremoto subterrâneo social. De certa forma isso começou a me perturbar, me fez pensar numa situação absurda que a gente vive e que vamos nos acostumando, como se morássemos em Bagdá", observa. Não que São Paulo esteja imune, pois, como bem lembra no livro, a cidade "não é nenhuma Suíça". Num contraponto ao personagem de Samora, aparece Renato, "de 40 e tantos anos", separado do primeiro casamento, e que tem um relacionamento com Mônica, uma mulher fútil, cuja ambição se limita ao cartão de crédito. "A rebeldia de Renato está adormecida. E os acontecimentos no decorrer do livro vão levando ele a questionar aquela vida acomodada, e é quando, de certa forma, reacende sua rebeldia e se interessa pela massagista cega", comenta. É neste núcleo que ele ilustra de forma interessante o jogo sexual entre os dois - como aponta o escritor, "é onde o sexo acontece". Bellotto procurou, ainda, "desglamourizar" essa onda da classe média, da zona sul carioca, que sobe o morro e que ganha status de programa "cool". "Há um certo modismo sobre a favela carioca. Claro que tem muitas coisas interessantes brotando dali, mas tem que se partir de um pressuposto que é um lugar sem infra-estrutura mínima, quase da Idade Média. Acho um equívoco essa glamourização", critica. Em Os Insones, ele encontrou a maneira de dar sua mensagem, sem qualquer discurso moralista. E que recado seria esse? "Talvez o livro aponte que as transformações pessoais são mais eficazes do que os sonhos idealistas. É também uma idéia de que a vida é meio sem sentido, uns acabam felizes, outros não. Acho que é isso que fica", responde. Sobre o desfecho, Bellotto avalia: "Acho que mais que trágico, o fim é um pouco melancólico". A atriz Malu Mader, com quem é casado há quinze anos, serviu de primeira leitora, como é assim em seus demais projetos literários. "Ela é sempre a primeira", confidencia. Nina, sua filha mais velha, de outro relacionamento, e Marta Garcia, da editora, completaram o time dos primeiros leitores. Assim, ele encontrou respostas para as dúvidas sobre se o livro (e a narrativa) provocaria o efeito esperado. "Tem um momento que você se confunde e quer saber como as histórias estão se batendo umas nas outras", observa. O objetivo, como se detecta, foi alcançado. Apesar do tema clichê, Bellotto explora em Os Insones a violência em seus diversos meios - dentro e fora de casa - de forma dinâmica, e, por que não, inovadora. ServiçoOs Insones, de Tony Bellotto (Companhia das Letras, 240 páginas, R$ 39,00). Lançamento nesta quinta-feira, às 18h30, na Livraria Cultura, Av. Paulista, 2.073.

Tudo o que sabemos sobre:
Tony Bellotto

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.