Tony Allen: o RG do Afrobeat

Vem para SP o nigeriano que ergueu com Fela Kuti uma instituição rítmica

RAMIRO ZWETSCH , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2012 | 03h09

Há bateristas que esbanjam técnica e outros que reinventam o próprio instrumento. Tony Allen faz os dois. O nigeriano desembarca no Brasil para duas apresentações no próximo final de semana: uma na madrugada de sábado para domingo, em meio à avalanche de atrações da Virada Cultural em São Paulo; e outra no Circo Voador (Rio de Janeiro), na noite de domingo. Esta é a terceira vez que ele vem ao País. A primeira aconteceu em 2004, quando hipnotizou um público razoável na Choperia do Sesc Pompeia à frente de seu afiado quinteto. Dois anos depois, voltou para participar do projeto Brasilintime - que promovia um encontro entre virtuosos das baquetas com alguns dos melhores DJs de hip hop norte-americano. Desta vez, Tony Allen deve encontrar um público mais familiarizado com suas invenções. Nos últimos anos, o gênero conhecido como afrobeat - que ele criou ao lado de Fela Kuti - ganhou terreno no Brasil e ecoa na música de artistas festejados como Criolo, Bixiga 70, Kiko Dinucci, B-Negão, entre muitos outros.

Surgido na virada dos anos 60 para os 70, o afrobeat explodiu na Nigéria e ganhou o mundo com uma mistura do transe percussivo africano e elementos do jazz e do funk norte-americanos. Seu porta-voz principal sempre foi Fela Kuti, criador incansável e também um líder político de oposição ao autoritarismo dominante não só no seu país mas em todo o continente. O discurso de contestação, a pontuação marcante dos metais, as linhas de baixo suingadas e o minimalismo rítmico das guitarras são algumas de suas principais características. O que move tudo isso, no entanto, é a bateria e esse mérito pertence inteiramente a Tony Allen.

O estilo que ele desenvolveu é um mistério que intrigou até mesmo um dos seus ídolos. Durante uma turnê de James Brown pela Nigéria nos anos 70, os músicos do soulman foram ao clube Shrine, em Lagos, assistir a um show de Fela Kuti e a banda Africa 70. O papa do funk escreveu sobre a experiência em sua autobiografia. "A banda de Fela tinha um ritmo forte. Acho que (o baterista) Clyde (Stubblefield) absorveu um pouco daquilo no seu jeito de tocar." Tony Allen também lembra do encontro. Em entrevista ao site Radiola Urbana durante sua passagem por São Paulo, em 2004, disse que o diretor musical de James Brown sentou-se próximo à bateria para observar seus movimentos. "Ele olhava e fazia anotações. Eu gargalhava vendo ele tentando decifrar minha batida."

Aqui no Brasil, seus admiradores não economizam elogios. "O impressionante é o RG da batida dele. Sinceramente, acho que o afrobeat não seria como conhecemos hoje se Fela tivesse outro baterista ao seu lado. O Tony Allen era o cara do ritmo e os dois estavam juntos nos Estados Unidos quando pensaram no conceito do afrobeat", diz o rapper e cantor B-Negão. "O Tony Allen é um daqueles gênios do instrumento, que levou sua execução a outro nível. Na minha opinião, está entre os cinco melhores instrumentistas de todos os tempos", acrescenta o produtor e tecladista Daniel Ganjaman.

Em entrevista à revista norte-americana Wax Poetics, em 2010, o baterista revelou parte do segredo. "Um dos meus objetivos sempre foi observar as dançarinas que nos acompanhavam nos shows de Fela. Eu desenvolvi alguns padrões para fazer com que elas se movimentassem de um jeito que eu achava bonito."

Tony Allen deixou a banda de Fela em 1978. Seu disco mais recente, Secret Agent (de 2009), indica que ele volta em plena forma ao Brasil. Seu show na Virada Cultural será à meia noite de sábado próximo no palco da Praça Júlio Prestes, que vai receber outras lendas do groove, como o músico ganês Ebo Tayler e Seun Kuti, o filho caçula de Fela.

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