Tons traduzem sentimentos

Antonio e Bruno Fagundes fazem imersão na obra de Mark Rothko

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2012 | 03h07

Pai e filho descobriram a peça Vermelho por caminhos distintos. Enquanto apresentava o monólogo Restos, em 2009, em São Paulo, Antonio Fagundes, de 62 anos, foi aconselhado por uma amiga a ler o texto de Red - bastou uma leitura para ficar interessado. "No dia seguinte, já estava buscando os direitos da montagem", lembra. Praticamente na mesma época, quando garimpava algo para levar ao palco, Bruno Fagundes, de 22 anos, recebeu um toque da atriz e produtora Rachel Ripani, que traduzira Red para o português. "Quando cada um foi falar sobre sua descoberta, descobrimos que falávamos do mesmo texto."

O jogo cênico proposto pelo dramaturgo e roteirista (O Aviador, Gladiador) John Logan era estimulante. A disputa verbal entre o pintor Rothko e seu assistente Ken se desdobra em várias camadas, partindo da dinâmica relação entre o artista e sua obra até chegar ao entendimento dos caminhos da pintura ocidental. "Rothko era o mais purista dos abstracionistas, com um grau de exigência muito grande em relação à sua obra", observa Antonio.

De fato, o pintor nascido na Rússia tinha uma rara preocupação em relação ao público que admiraria suas telas - para Rothko, não importava o tamanho das telas (em seu período clássico, ele criou peças monumentais), mas a criação de um contato íntimo e humano com o espectador que, a partir de temas como tragédia, êxtase e sublime, fosse transportado para o campo espiritual que ele materializou nos contrastes e na modulação da cor.

Por conta disso, é significativo que a peça comece justamente quando Rothko chama Ken para observar um de seus quadros. "O que você vê?", é sua primeira fala e, antes que o rapaz responda, ele passa a apontar detalhes que precisam ser captados, pois, afinal, para Rothko, a pintura mais interessante é aquela que expressa mais o que se pensa do o que se vê - algo como um meio para externar pensamentos filosóficos ou esotéricos a partir da tinta e do pincel.

"Seu entendimento sobre a função da pintura era único e, à medida que foi envelhecendo, Rothko foi ficando mais amargo, o que reflete na sua obra", conta Bruno que, ao lado do pai, visitou museus nos Estados Unidos para observar pessoalmente as obras do pintor. "Nenhuma reprodução, por mais fiel que seja, revela os detalhes da graduação da cor, as diversas camadas de tinta, as pinceladas feitas na tela colocada de ponta-cabeça."

No momento em que se passa a ação da peça, final da década de 1950, sua obra passa a exibir cores escuras, tons fechados de vermelho, marrom e preto. Isso aconteceu justamente a partir do convite aceito para pintar os murais que decorariam o restaurante Four Seasons, em Nova York. Rothko chegou a criar vários grupos de pinturas para o projeto, mas acabou desistindo. "Quando visitou o local e percebeu o ambiente barulhento e muito disperso onde ficaria exposta sua obra, ele decidiu voltar atrás", conta Antonio.

Rothko é questionado por Ken sobre sua visão monotemática da arte. Apesar de admirar profundamente a obra do mestre, o jovem atua como uma consciência crítica, lembrando da chegada de uma nova geração de artistas que criticam justamente a comercialização da arte - basta lembrar a versão muito original criada por Andy Warhol da sopa Campbell's. "Aliás, eu mudei minha visão dos artistas pops após aprofundar nosso estudo", lembra Antonio. "Até então, eu torcia o nariz para o seu trabalho, mas hoje entendo como muito importante."

O estudo feito por pai e filho, aliás, foi complementado por conversas com um especialista do gênero: o artista plástico Paulo Pasta atuou como consultor da produção, identificando a importância da obra de Rothko, além de também ensinar a como manipular tintas e pincéis.

As cores têm vital importância em Vermelho, a ponto de o diretor Jorge Takla preparar um estudo de iluminação que traduza teatralmente a consciência pictórica de Rothko. "Quando começarmos os ensaios no palco do teatro GEO, em algumas semanas, iniciaremos tanto o trabalho de marcação dos atores como afinação da luz."

Takla acompanha com atenção o desenvolvimento de pai e filho como atores. "No início, achei que seria algo muito exigente, mas eles logo se revelaram grandes parceiros em cena", observa. "Há instruções, aliás, passadas por mim que o Antonio traduz com mais facilidade para o Bruno."

Pai e filho também assistiram juntos à montagem que estreou na Broadway em 2009, com Alfred Molina como Rothko e Eddie Redmayne interpretando Ken. "É um trabalho muito interessante, mas que diz mais respeito à plateia americana", acredita Antonio. "Para nós, brasileiros, a pegada será outra."

A fim de que o público tenha mais familiaridade com a pintura abstrata de Rothko, o saguão do teatro GEO vai abrigar uma exposição, com reproduções de suas telas mais importantes, além de quadros com informações biográficas e artísticas. "Também teremos detalhes sobre as diversas personalidades que são citadas na peça", completa Takla que, depois de um período dedicado aos grandes musicais, agora se debruça sobre um texto mais intimista. "É a humanidade de Vermelho que mais me impressiona."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.