Tons do desejo feminino

Em breve será lançado no Brasil pela Editora Intrínseca o livro Cinquenta Tons de Cinza, de E. L. James, pseudônimo de Erika Leonard. Trata-se de um fenômeno de vendas: 10 milhões de exemplares em 6 semanas nos Estados Unidos e mais de 1 milhão de cópias eletrônicas (e-books) para o leitor digital Kindle, número nunca antes atingido. Em rápida sucessão saíram duas sequências - Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade - e a série já vendeu 31 milhões de exemplares para um público majoritariamente feminino de 37 países. A autora já autorizou a versão cinematográfica e criou uma marca para diversos itens de consumo derivados de seu livro, como roupas íntimas, cosméticos, perfumes e artigos de sex-shops para mulheres.

Sérgio Telles,

21 Julho 2012 | 03h36

O livro chama a atenção não só pelas vendas. Nasceu como um fan fiction, gênero desconhecido no Brasil, mas pujante nos Estados Unidos, que consiste na criação realizada por fãs de livros ou séries da televisão de grande sucesso de massa. A partir da trama original, os admiradores a reescrevem e desdobram, preenchendo brechas não exploradas pelo autor, mudando o caráter dos personagens, dando-lhe destinos diversos, atribuindo-lhe uma sexualidade explícita e muitas vezes transgressiva, etc. A fan fiction pode simplesmente dar continuidade a séries ou livros concluídos por seus autores ou escrever prequels (neologismo referente a episódios centrados num tempo anterior ao abordado pelo autor original, o contrário de sequel, sequência). O fenômeno, que se iniciou nos anos 60 em torno de seriados de TV, como Star Trek, e no Japão em torno dos mangás, expandiu-se extraordinariamente com a internet, abrigando-se em imensos arquivos abertos, onde qualquer um pode modificar, acrescentar capítulos ao já escrito ou criar novos textos, fazer resenhas, sugerir alterações e discutir diretamente com os demais participantes. A fan fiction, que também ocupa sites e blogs pessoais de autores ou grupos de interessados, é uma curiosa experiência de escrita coletiva, subproduto espontâneo das grandes produções da indústria do entretenimento e dos novos meios de comunicação e interatividade como a internet. Ela dá uma nova dimensão às sempre presentes questões sobre a autoria e a originalidade de uma obra, ocasionando, em alguns casos, disputas legais em torno de direitos autorais.

Cinquenta Tons de Cinza começou como um fan fiction da série Crepúsculo. Como a forte tonalidade sexual atribuída aos personagens fugia aos padrões do original, E.L. James rebatizou sua criação com o nome de Masters of the Universe, trocou os nomes dos personagens e deles retirou a condição de vampiros. A série foi então publicada no site da autora que, ao perceber o sucesso, a recolheu e publicou como e-book e posteriormente como livro, com o estrondoso sucesso já mencionado.

Num momento em que a mídia impressa se sente tão ameaçada pela eletrônica, Cinquenta Tons de Cinza, que transita com tanta desenvoltura entre as duas, mostra a possibilidade de uma convivência produtiva entre elas e até mesmo reafirma o poder da mídia impressa.

Mas o aspecto mais interessante de Cinquenta Tons de Cinza diz respeito à sexualidade feminina. A história trata, com detalhes minuciosos e estimulantes, de uma jovem estagiária que vai entrevistar um poderoso multimilionário e se entrega a seus encantos, quando descobre seus pendores para o sadomasoquismo, a que se entrega com grande prazer.

O livro foi acusado de solapar conquistas feministas por mostrar o gozo feminino sob a forma de submissão e de estimular a violência contra as mulheres. Tal crítica foi rebatida com a alegação de que essas ideias, aparentemente progressistas, revelavam uma posição conservadora, baseada numa visão normativa que confunde o sadomasoquismo enquanto prática consensual entre adultos - tal como descrito no livro - com o abuso ou a violência do homem sobre a mulher. O simples fato de o livro - escrito por uma mulher e lido por mulheres - ser um grande sucesso de vendas responderia a tais acusações, pois evidencia que as mulheres estão livres para expressar e gozar com sua sexualidade, uma clara conquista feminista.

Efetivamente, podemos pensar que o sucesso do livro entre as mulheres aponta para algumas especificidades do desejo feminino. Quem sabe, mostra que, despidas das censuras e das ideologias de poder e domínio, as práticas sexuais remetem ao gozo específico determinado pelas diferenças anatômicas sexuais. Que a mulher não seja o objeto sexual do homem e sim o sujeito de seu próprio desejo é algo que assusta e intimida o homem, mesmo quando esse desejo é o de ser submetida de forma masoquista.

Os limites entre o erotismo e a pornografia são imprecisos. Embora textos com esse teor sejam lidos por ambos os sexos, o sucesso feminino de Cinquenta Tons de Cinza, que tem sido chamado nos Estados Unidos de "pornografia para mamães", confirma a afirmação do psicanalista Robert Stoller de que os homens se interessam mais pela pornografia veiculada em imagens visuais (fotos, vídeos, filmes), enquanto as mulheres a preferem sob a forma de novelas e romances.

A pornografia tem como objetivo imediato provocar uma excitação sexual, quase sempre aliviada com a masturbação. Antes de Freud, a ignorância e hipocrisia moralista atribuíam à masturbação males sem fim e desenvolviam contra ela grandes cruzadas; talvez por isso mesmo, os supostos malefícios da masturbação foram estendidos à pornografia, que a ela induzia. A psicanálise mostrou como a masturbação é normal em algumas fases e em determinadas circunstâncias da vida. Por definição, ela realiza de forma imaginária o desejo erótico do sujeito, numa cena em que o outro não existe a não ser como fantasma. E esse é verdadeiro problema da masturbação: o proporcionar a possibilidade de fuga frente ao necessário e enriquecedor contato real com o outro. Na prática solitária, o sujeito pode dar livre curso a suas fantasias eróticas, mas no momento em que o outro se apresenta, ainda que seja o outro depreciado e denegrido da prostituição, o panorama muda radicalmente e o sujeito se arrisca a se deparar com angústias, proibições, inibições e impossibilidades negadas no gozo masturbatório.

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