Epitácio Pessoa/ Estadão
Epitácio Pessoa/ Estadão

Tônia Carrero: se tivesse nascido na Europa, teria sido convidada para Hollywood

Atriz morreu aos 95 anos no final da noite deste sábado, 3, na clínica São Vicente, na Gávea, no Rio de Janeiro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 21h18

Desde 2013, Tônia Carrero vivia reclusa. Seu filho, Cecil Thiré, havia confirmado que a mãe sofria de uma doença grave que lhe impedia de andar e se comunicar. Mas não foi isso que a matou. Tônia havia sido internada na Clínica São Vicente, no Rio, para um procedimento simples, para o tratamento de uma úlcera, mas teve uma parada cardíaca no sábado à noite e não resistiu.

Tinha 95 anos. Foi velada neste domingo, 4, até 22 h, no hall do Theatro Municipal, em plena Cinelândia carioca. Na segunda, será cremada no cemitério do Caju. A cerimônia foi adiada para permitir que familiares que estavam no exterior retornassem ao País.

Grande Tônia. Foi certamente uma das mulheres mais belas do seu tempo, uma beleza nórdica que a levou a ser comparada a Ingrid Bergman e impulsionou sua carreira. Em 2017, completaram-se 70 anos de sua estreia – tinha 24 quando fez, na Vera Cruz, Querida Susana, com direção do italiano Alberto Pieralisi.

Grande nome do teatro e da televisão, Tônia sofreu uma parada cardíaca durante uma cirurgia

Não é um filme que disponha de boa reputação – chegou a ser considerado o pior de 1947, mas Tônia é um assombro e contracena com o maior galã da época, Anselmo Duarte. Cinco anos depois, Tônia e Anselmo fariam dupla em Tico-Tico no Fubá, e desta vez a receptividade foi estrondosa. O filme dirigido por outro italiano, Adolfo Celi, ostenta até hoje a reputação de ser um dos melhores da Vera Cruz.

Tônia nasceu Maria Antonietta de Farias Portocarrero, no Rio, em 1922. Filha de um general, neta de um marechal, a garota graduou-se em Educação Física. A arte pode não ter vindo diretamente do primeiro marido, o artista plástico Carlos Arthur Thiré, com quem teve o filho Cecil Thiré. Mas acompanhá-lo quando foi viver na França permitiu a Tônia estudar interpretação em Paris.

Estreou em 1949 no Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, em São Paulo, em Um Deus Dormiu Lá em Casa, com Paulo Autran. Já separada de Thiré, e casada com Celi, fundaram a CTCA – a Cia. Tônia-Celi-Autran, que seria decisiva para o desenvolvimento do teatro brasileiro dos anos 1950 e 60.

+++ Amigos e artistas se despedem da grande atriz Tônia Carrero

Se tivesse nascido na Europa, com certeza teria sido chamada para fazer carreira em Hollywood. No cinema, e às vezes de forma espaçada, participou de filmes como Quando a Noite Acaba, Apassionata, É Proibido Beijar, Mãos Sangrentas, Esse Rio Que Eu Amo, Gordos e Magros. Um grande papel foi em Sonhos de Menina Moça, de Teresa Trautman, de 1987, como a matriarca que reúne a família pela última vez, na casa que será demolida em breve.

No teatro, com sua beleza e tipo aristocrático, Tônia participou de montagens que fizeram história, com diretores como Ziembinski, Celi, Gianni Ratto e Maurice Vaneau. Em 1968, algo se passou e Tônia, com direção de Fauzi Arap, teve um choque de realidade como a prostituta Neusa Suely de Navalha na Carne, o texto emblemático de Plínio Marcos.

A partir daí vieram seus talvez maiores papéis – em Casa de Bonecas, de Ibsen; Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams; Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee; A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt. 

Na TV, brilhou, na Globo, em Uma Rosa com Amor, Cara a Cara, Água Viva, Sassaricando, Sangue do Meu Sangue, Senhora do Destino. Uma grande atriz que deixou sua marca na história da dramaturgia brasileira. 

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