Wilton Junior/Estadão - 09/08/2006
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Entrevista: Toni Morrison vê crescer machismo e racismo no mundo

'Eu aceitei o Nobel para que toda mulher negra me visse e repetisse para si mesma que ela também é capaz de chegar lá', diz em Paraty e autora de 'Amada'

Entrevista com

Toni Morrison

Antonio Gonçalves Filho e Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2006 | 18h47

PARATY — Em seu livro mais popular nos EUA, Amada (a ser publicado pela Companhia das Letras), a escritora americana Toni Morrison, prêmio Nobel de Literatura de 1993, parte não de um tema ou de personagem históricos, mas de uma pergunta muito comum entre as feministas dos anos 1970: pode uma mulher abdicar do direito de ter um filho?

Essa é uma questão que ainda lhe aflige três décadas depois, como revelou na entrevista exclusiva concedida à reportagem na 4.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Onde começa e termina, afinal, a autonomia da mulher num mundo patriarcal, ameaçado por fundamentalismos de toda espécie? Se o leitor ainda não tem resposta, talvez esteja na hora de ler esse antigo livro de Toni Morrison, lançado há quase 20 anos e ainda perturbador.

Filmado pelo cineasta Jonathan Demme em 1998, Amada foi inspirado na história real de uma escrava, Margaret Garner, que foge com o marido de uma plantação de Kentucky e busca refúgio em Ohio, matando seu bebê quando o capataz vem atrás do casal.

Margaret não quer ter descendentes escravos. Do mesmo modo, Sethe, a protagonista de Amada, tenta matar suas crianças, mas só uma delas, um bebê ainda sem nome, é morta. "Quando soube da história de Margaret, achei que não pudesse escrever sobre tanta atrocidade, mas, afinal, a história foi concluída e sua mensagem chegou aos principais destinatários, as mulheres negras."

'Baldwin foi grande, mas não chegou a discutir o problema da mulher negra nos EUA'

Para a escritora as conquistas das mulheres de sua geração são insignificantes quando se considera o desrespeito aos direitos básicos dos cidadãos num mundo em que seres humanos ainda são vendidos como mercadoria (há 27 milhões de crianças, refugiados e trabalhadores escravos à venda, lembra ela). O machismo recrudesceu, o racismo igualmente e não há razões que justifiquem atitudes otimistas sobre uma mudança de rota do planeta.

Há 30 anos, lembra a autora, escritores como seu amigo James Baldwin (1924-1987) desafiaram conservadores hidrófobos para inserir na literatura americana personagens marginais e negros. Hoje, autores lutam para ganhar mais dinheiro.

"Baldwin foi grande, mas não chegou a discutir o problema da mulher negra nos EUA, o que me fez virar escritora". A voz de Toni Morrison se faria ouvir em 1970, ao lançar o primeiro livro (O Olho Mais Azul, Companhia das Letras, 2003), e, em especial, após receber o Nobel. O sucesso de Amada suscitou igualmente discussões sobre a herança escravocrata nos EUA. O filme impulsionou as vendas do livro, que atingiram 800 mil exemplares, mas, segundo ela, não deve ter sido lido por policiais brancos.

A recente catástrofe da passagem do furacão Katrina por New Orleans provou, segundo a escritora, que "os EUA nunca deixaram de ser racistas". Ela ficou horrorizada com as cenas que viu. "Negros sobre telhados pedindo para ser salvos por policiais que, em helicópteros, pareciam temer suas pistolas de sinalização, mulheres sendo obrigadas a tirar seus sapatos, ameaçadas como saqueadoras por outros policiais brancos, foram tantas as demonstrações de racismo que seria incapaz de enumerá-las", diz. "É evidente o desprezo governamental pelos negros", conclui.

Seus livros são povoados de mulheres independentes, incômodas

Toni Morrison é como a protagonista de Sula, antigo romance de 1973 sobre outro espírito livre que incomoda a comunidade em que vive. Seus livros são povoados de mulheres assim, independentes, incômodas. De que lado ela e suas heroínas estariam? Do pacifista Martin Luther King ou do provocativo Malcolm X?

"Entre os dois", responde. "Tem dias que eu amanheço com raiva, como Malcolm X, e outros em que defendo a resistência pacífica". De modo geral, resume, vence Martin Luther King."Gosto do que funciona e a estratégia de Luther King, não há dúvida, funciona", justifica. "O problema com Malcolm X é que, se você prega a destruição, você destrói a si mesmo, ou seja, se você bota fogo na casa, tome cuidado para não deixar suas crianças dentro."

Seus livros refletem sobre esse antagonismo entre Luther King e Malcolm X. Ela construiu seu Paraíso (Companhia das Letras, 1998) sobre essa dualidade. Nele, uma comunidade de negros intolerantes com mestiços acaba se envolvendo em crimes contra mulheres que moram num convento.

Toni Morrison dribla cabeças cartesianas ao falar de protestantes que assassinam mestiços por considerar que esses representam uma espécie de degeneração racial. Um dos poucos personagens simpáticos é um ministro religioso com o qual a autora divide a mesma posição a respeito de problemas morais. Como se nota, ela não está disposta a dar descanso nem a seus pares. Confunde a todos.

A escritora incursiona pelo universo da música

A escritora, aos 75 anos, ainda gosta de provocar e tentar novos caminhos. Fala com entusiasmo de sua parceria, iniciada em 1992, com o maestro e compositor norte-americano André Previn, com quem dividiu a composição de um ciclo de canções eruditas (Honey and Me) para a soprano Kathleen Battle. Mas não muito quando fala de sua ópera Margaret Garner, composta há três anos para resgatar a memória da escrava que inspirou seu livro Amada (a personagem não aparece nele).

"Quando o diretor me mostrou o primeiro tratamento do libreto, achei horrível e prometi a mim mesma não tentar a ópera novamente." No entanto, ela escreveu um outro ciclo de canções para Jessye Norman sobre o mito de Eva, "evitando identificar a maçã como signo do pecado, da sedução ou do demônio". Isso resume sua curta carreira de libretista. Mas seus leitores não precisam ficar tristes. Ela promete seguir escrevendo livros. E não vai recusar nenhum prêmio dado pelos brancos, como fez seu colega, o autor inglês, de origem jamaicana, Benjamin Zephaniah, também na Flip. "Respeito sua posição ao rejeitar a Ordem do Império Britânico. Mas eu aceitei o Nobel para que toda mulher negra me visse e repetisse para si mesma que ela também é capaz de chegar lá."

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