Toni Brandão é o rei da 5.ª série

Eles não brincam mais em playground mas também não são aceitos na quadra poliesportiva, dominada pelos grandalhões. Eles não gostam mais de livro infantil, de teatro infantil, de festa infantil... Mas, droga!, essa gangue de adolescentes também não facilita em nada e fecha para eles todas as portas...Na faixa etária entre 9 e 12 anos, eles são os sofridos e deslocados e insatisfeitos e infelizes pré-adolescentes - alvo da literatura de alta qualidade do quarentão Toni Brandão, um paulistano que faz muito sucesso atuando em várias frentes, mas sempre de olho grudado "nos carinhas e nas minas de 9 a 12".Brandão escreve livros para pré-adolescentes urbanos de classe média há 11 anos e, aos poucos, foi diversificando seus meios: hoje está também na TV, no teatro, na Internet, já gravou um CD e prepara um filme. "Eu fui um pré-adolescente triste, muito triste", admite ele.Quase sempre na editora Melhoramentos, ele já vendeu 450 mil livros, mais da metade nos últimos cinco anos. O carro-chefe é Cuidado: Garoto Apaixonado, na 16.ª edição, com 80 mil exemplares vendidos. Já virou peça de teatro, muito premiada em São Paulo e no Rio, e em breve será um longa-metragem, com direção de Renata Neves.Para mero efeito de comparação, vale lembrar que outro escritor bem-sucedido dessa nova safra de literatura para jovens o jornalista Marcelo Duarte, vendeu até agora 265 mil exemplares de seus sete ´guias para curiosos´. E o veteraníssimo Ziraldo, só com O Menino Maluquinho, já vendeu 2 milhões de livros.A volta de Lobato - A mais nova empreitada de Toni Brandão é a nova adaptação para a TV Globo do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato. Com mais três escritores do Rio (Luciana Sandroni, Mariana Mesquita e Cláudio Lobato), ele enfrenta esse desafio com um prazer indescritível."Se hoje as crianças da geração Internet/videogames resistem a ler Lobato, é porque a linguagem dele não pega muito entre eles, e não porque suas histórias envelheceram", diz. "Se a gente atualizar a linguagem, pronto, Lobato volta rapidinho à ordem do dia."Com essa receita na cabeça dos quatro roteiristas, a nova série de TV será absolutamente fiel a todos os livros do escritor de Taubaté, só que as histórias e os personagens serão apresentados na telinha com roupagem técnica e recursos de século 21."Não vamos inventar nada nem criar nada que fira a imaginação sem limites de Lobato. Seremos completamente respeitosos. Tudo o que aparecer na TV terá sido escrito por ele e adaptado por nós", garante Brandão. "E as crianças de hoje não vão mais achar Lobato chato."Toni Brandão não tem fórmulas nem segredos de como conseguiu fisgar um público mirim até então pouco contemplado com bons livros. O que ele tem mesmo é talento. Sua linguagem é ágil, sem ser pobre. Atual, sem ser fácil. "Não tenho medo de fazer literatura de entretenimento, porque sei que estou fazendo isso sem banalizar", diz, seguro de seu ofício. "Para esses potenciais leitores dos 9 aos 12, ler é chato, maçante - minha missão é reverter esse quadro."Mágica de ler - É seguindo essa mesma linha de raciocínio, que Toni Brandão aplaude a série de livros do personagem Harry Potter. "São livros inegavelmente criativos, que têm a seu serviço uma poderosa máquina comercial, editorial e de marketing´, define. "Não há nada no mundo que pague o que Harry Potter fez com as crianças do mundo: a mágica de fazê-las ler."Nas escolas de todo o Brasil, Toni Brandão, em certo sentido um rival de Harry Potter, é o rei da 5.ª série. É o ano escolar que mais se presta ao prazer de seus livros e ele conquistou o fértil filão dos paradidáticos, um desejo de todo escritor de literatura infantil. "Quando um professor indica seu livro na sala de aula, aí sim você começa a vender e a ficar conhecido", diz.Hoje, Toni Brandão não depende muito mais da indicação dos professores. "As crianças já vão espontaneamente às bibliotecas de suas escolas à procura de um livro meu", conta, sem cabotinismo. "Faço muitas palestras em escolas e isso, para um escritor, é uma experiência rica de que não se pode abrir mão. Visitar escolas: não há pós-graduação em Harvard que cumpra e substitua essa etapa da formação de um autor."

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