Toneladas de leveza

Mostra em Paris revela a arte conceitual do escultor brasileiro Jailto Marinho

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2012 | 03h06

Em 1704, Jacques V. Gabriel, primeiro arquiteto real, diretor da Academia Real de Arquitetura e membro de uma das mais importantes dinastias da profissão na Europa, entregou a Paris aquela que talvez fosse à época sua mais bem acabada obra na capital francesa: o Hôtel de Varengeville, situado no tradicionalíssimo Boulevard Saint-Germain de Prés. Esse prédio, ainda hoje um dos testemunhos da evolução do Barroco Tardio ao Neoclassicismo, serve agora de pano de fundo para um choque de modernidade: a exposição Le Vide Oblique (O Vazio Oblíquo), do artista plástico brasileiro Jaildo Marinho, em cartaz na Casa da América Latina.

Radicado em Paris desde os anos 90, Marinho tornou-se uma das referências na Europa quando o assunto é a tradição brasileira em escultura neoconcretista, um estilo marcado no passado pelo trabalho de criadores como Helio Oiticica e Amilcar de Castro. Fiel aos princípios teóricos do estilo, Marinho busca em seu trabalho acentuar a "organicidade" da escultura, sempre com um tema-fetiche: o vazio. Essa obsessão encontra sua melhor expressão em formas geométricas obtidas a partir da talha de mármore, branco ou negro, que o artista mescla - e profana - com cores fortes, reluzentes, usadas para acentuar a noção do vago, assim como a interação entre o ambiente, o público e a obra, que via de regra trás influências de seu passado no nordeste do Brasil.

Composta de duas dezenas de peças, a exposição vem recebendo elogios da crítica especializada na França. Organizada pelos comissários Jacques Leenhardt e Max Perlingeiro, a mostra é dividida em dois momentos, um "bidimensional", com quadros de Marinho, e outro "tridimensional", com suas esculturas. A segunda parte é, sem dúvida, a mais impressionante. Como ressalta Leenhardt, a obra do brasileiro "apresenta uma organização nova de elementos plásticos dispostos e 'satelizados' em torno de um vazio ou de uma ausência original".

Esse vazio, adverte o comissário, convoca a cultura filosófica ocidental a refletir sobre o tema, um terreno pouco explorado na Europa e nas Américas. "Sempre trouxe comigo muita curiosidade pelo vazio. De certa forma, minha obra o enquadra, fazendo com que tudo participe dele, seja racional ou irracionalmente", diz Marinho, satisfeito com a reação do público, que interage das mais diferentes formas - a mais simples delas tirando fotos como se fizessem parte de uma tela.

Além de seu conceito, o trabalho de Marinho impressiona pelo rigor técnico, pela habilidade com que transforma pedras de centenas de quilos - algumas pesam 600, outras 800 quilos - em objetos sustentáveis, que se projetam no espaço com leveza, se tocam sutilmente ou se movimentam, abrindo-se ao redesenho permanente de acordo com a intervenção do público. Um desses exemplos é Le Vide Oblique 2, de 2012, feita em mármore branco e pintura acrílica, ou ainda 3 Stelas, realizada em 2011 com os mesmos materiais.

Essas peças são testemunhos não apenas de um olhar artístico, mas também de uma certa virtuosidade matemática e física. A habilidade começou aos 12 anos, em Santa Maria da Boa Vista, em Pernambuco. De lá para cá, não para de evoluir, seja por sua pesquisa própria, seja pela interação com herdeiros do Groupe Madi, o conjunto de criadores de arte abstrata do qual fizeram parte gente do peso de Mondrian e Kandisnsky. "No meu trabalho há virtudes geométricas industriais, sim", reconhece Marinho. "São meios que encontro para transformar o quadrado em um objeto artístico leve."

Ao longo dos últimos dez anos, Marinho expôs em países como França, Brasil, Estados Unidos, Itália, Espanha, Eslováquia e Hungria. A exposição da Maison de l'Amérique Latine fica em cartaz até 16 de junho, uma oportunidade para descobrir, ou redescobrir, um pouco da história e das heranças deixadas pelo neoconcretismo brasileiro.

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