Tonalidades e tolerância

Em seu programa, Kamau Bell deixa o outro se expor. Ainda que o outro defenda uma aberração

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2018 | 02h00

NOVA YORK - O prefeito de Londres Sadiq Khan se misturou a um milhão de pessoas que foram assistir a outras 30 mil desfilarem na Parada do Orgulho Gay, no sábado. Sadiq Khan é muçulmano praticante e se tornou alvo de múltiplas ameaças de morte depois de votar a favor do casamento gay como membro do Parlamento, em 2013. Sempre ativo na rede social, Khan postou fotos do arco-íris que encheu as ruas centrais da capital e escreveu: “Aqui em Londres você tem liberdade para ser quem você quer ser e amar quem você quer amar”.

Postei a foto na minha timeline com uma referência irônica ao prefeito da minha cidade natal. Aquele que se recusa a cumprir suas funções cerimoniais no carnaval, a festa que mais enche os cofres do Rio e, ao ser flagrado oferecendo operação de catarata grátis a evangélicos, sugere que, além de intolerante, continua a lutar para compreender o conceito de estado laico. Um internauta respondeu de bate-pronto: “Convenhamos que ele é hipócrita. Se ele fosse simpático à causa LGBT, ele renunciaria ao Islamismo. Está aí por marketing. Só isso. Eu, como gay, se estivesse aí, vaiaria-o”. (sic) “O Crivella, pelo menos, é direto em mostrar que desaprova. Acho que é mais verdadeiro.”

No interesse de não cair na armadilha do nosso tempo, a indignação recreativa, vou desviar a atenção dos leitores para longe dessa contorção lógica que desafiaria acrobatas do Cirque de Soleil. Sim, vou contar um caso de tolerância em série. E quando digo série, me refiro à ação repetida de compreender o outro diferente, encapsulada numa série de TV. É uma pena que a CNN Internacional não exibe no Brasil o programa semanal do comediante W. Kamau Bell, que está numa excelente terceira temporada. O título é United Shades of America (Tonalidades Unidas da América), e, como Kamau Bell repete a cada abertura, “eu me desafio a ir mais fundo, estou numa missão para entender outras culturas e crenças que acrescentam cor a este país maluco”. Com o espetáculo de intolerância que Sucupirington tem dado ao mundo, exibir o programa no exterior seria quase um favor aos sofridos diplomatas do Departamento de Estado.

Engana-se quem acha que o comediante negro pensa em preto e branco. Kamau Bell se casou com uma mulher branca e sabe o risco que isso implica. Num café de Berkeley, Califórnia, em 2015, empregados tentaram expulsá-lo pensando que ele estava assediando sua mulher e a filha de três meses.

As tonalidade diferentes que a série explora transcendem raça e Kamau Bell concordou comigo quando disse que um tema da série é a desigualdade. Alguns temas explorados: A comunidade Sikh; Nogales, a cidade rachada pela fronteira entre Arizona e México; os Apalaches das minas de carvão (que votaram em Trump); muçulmanos em pequenas cidades; gangues de Chicago; comunidades indígenas.

Kamau Bell diz que é péssimo ator e não sabe fingir interesse em alguém ou algo quando não está motivado. O que não o impediu de inaugurar a série, em 2016, sete meses antes da eleição, com “A Nova KKK” e se encontrar com um novo líder da Ku Klux Klan, a organização racista formada depois que Guerra Civil do século 19 acabou com a escravidão nos EUA. A imagem de Kamau Bell saltando do carro numa estrada deserta no meio da noite, seguido de sua câmera para encontrar o líder de robe branco com a cara coberta, é extraordinária. Ao ouvir que a Bíblia condena seu casamento com uma branca, o comediante diz: “Preferia ter esta conversa à luz do dia num café onde eu lhe convidasse para comer uma torta”.

Enfrentando a desumanidade de quem defende sua destruição, ele continua conversando racionalmente e deixa o outro se expor. Ainda que o outro defenda uma aberração. Não é propaganda ou normalização. É um gesto genuíno de sair de sua zona de conforto.

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