Tomie Ohtake recria a tradição

Em novembro, Tomie Ohtake completa 90 anos. Em pleno vigor criativo, ela não quis esperar as grandes comemorações programadas para o fim de 2003 para exibir alguns de seus trabalhos mais recentes. Afinal, até lá ela terá outros, ainda mais recentes, para reiterar a singular qualidade de seu operoso percurso artístico. Tomie abre hoje uma mostra com seis gravuras em metal inéditas, série que se integra com propriedade aos momentos altos da obra da artista.As gravuras estabelecem um equilibrado jogo entre texturas e grafismos, que ora ocupam o fundo da composição ora assumem o primeiro plano. Impossível ver esses trabalhos sem notar a enorme coerência da artista. Está novamente ali o denso diálogo entre tradição e contemporaneidade, entre bagagem cultural e construção de um vocabulário formal próprio.Nestas gravuras recentes, como em boa parte de sua pintura, há uma sábia exploração de texturas. Na pintura, as superfícies rugosas que realizava em períodos mais recuados (anos 60 e 70) foram substituídas por uma textura quase virtual, obtida (a partir do fim dos anos 80) pela intensa vibração do pincel sobre magras camadas de tinta. Estas, gradualmente, foram assumindo conotações orgânicas e, mesmo, parecendo-se a espaços cósmicos. Espaços reversíveis, apontando ora a grandiloqüência contida na mínima engenharia do humano ora a estranha semelhança existente entre a mecânica destes ínfimos organismos e a máquina celeste.Na técnica da gravura em metal, estas obras recentes não usam a sobreposição rítmica de chapadas de cor de séries anteriores (feitas em serigrafia). Há agora sutis e intrincadas tramas de água-tinta e da água-forte, fazendo a luz emergir do fundo do trabalho para tornar o resultado mais complexo e denso ao olhar.Mesmo sabendo-se que a obra de Tomie fez-se inteira no Brasil, é importante entendê-la também como ponte entre Oriente e Ocidente. O Japão existe em Tomie desde sempre e é indissociável de sua arte. Nela, a cultura nipônica se revela mais do que se impõe. Tomie não cultiva epidérmicos exotismos. Ela sente de dentro uma forma de pensar a arte e expressá-la.Assim, as texturas que observamos nas gravuras recentes de Tomie nos remetem a pelo menos três vertentes orientais: uma delas é a tradição da bidimensionalidade (superfícies planas), presente nos clássicos da gravura tradicional japonesa. As imagens das gravuras de Tomie são planares, sem qualquer intenção de adotar a perspectiva (código de representação inventado no Ocidente).Outra característica é o uso de texturas sinuosas, como nebulosas ou céus nevoentos. Aqui, a referência oriental é a delicada e rigorosa técnica de fundo dourado e grafias vegetais da pintura praticada no Japão imperial do período Edo (séculos 1603-1868).Em toda a obra abstrata de Tomie também ressoa uma tradição recente, mas não menos fundante da contribuição nipônica às artes visuais: o movimento mono-ha. Mono-ha ou, literalmente, "escola das coisas", mudou o curso da arte contemporânea japonesa e repercutiu bem depois da vigência do seu epicentro, o grupo Gutai (que teve curta duração: de 1968 até o início da década de 70).O movimento mono-ha pode ser entendido como a síntese oriental, impregnada de filosofia zen-budista e taoísta, do que no Ocidente se chamou de minimal art. Ou seja, algo profundamente identificado com a síntese das formas e materiais existentes na natureza. É esse caminho que vemos Tomie trilhar, de modo muito pessoal, nas sínteses formais que realiza tanto em sua pintura como, agora, na série de gravuras recentes.Participam também dessa exposição um conjunto de gravuras em metal em grande formato, realizadas em 96, e a série de esculturas exibidas em sala especial da 23.ª Bienal de São Paulo (1996). As gravuras em grande formato são belas composições verticais em que a artista utilizou diversas possibilidades de cores em composições modulares. O módulo é a matriz, sempre a mesma em cada conjunto. A combinação de tons e formas faz emergir uma forte musicalidade, com contrastes tonais vigorosos e harmonias surpreendentes.As esculturas são outra demonstração das sutilezas que emergem da soma entre tradição e contemporaneidade orientais. Na trajetória dessas peças de metal, feitas cada uma de um único tubo de metal pintado de branco, há a referência ancestral ao gesto gracioso e sintético do pincel de sumi-ê sobre o papel. O traço negro do nanquim foi substituído pelo movimento aéreo do delgado tubo branco. Um percurso que remete à dança ou ao revolutear de um pequeno e ágil pássaro que, apesar da envergadura diminuta, consegue imantar com sua presença um grande espaço em torno.O Instituto Tomie Ohtake, projetado e administrado pelos filhos da artista, os arquitetos Ruy e Ricardo, prepara a mostra comemorativa dos 90 anos da artista para o fim do ano. Será uma data especialmente festiva, porque a alegria de viver de Tomie a situa não só entre os mais longevos artistas do País, mas especialmente como alguém que sabe manter seu trabalho em constante evolução. Enquanto a festa maior não vem, é imperdível a alegria de visitar mais uma demonstração da eterna vitalidade da obra de Tomie.Tomie Ohtake. De terça a domingo, das 11 às 20 horas. Instituto Tomie Ohtake. Avenida Faria Lima, 201, tel. 6844-1900. Até 16/3.

Agencia Estado,

07 de fevereiro de 2003 | 11h09

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