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Tomatinho

Um vaso deixado por uma amiga ressaltou o vínculo que existe entre nós

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2016 | 02h00

Uma amiga fechou as malas. Trocou Lisboa por São Paulo depois de já ter trocado São Paulo por Lisboa. Eu fiquei chateada, mas sei que a grande graça da vida é poder mudar de ideia. Ela foi embora e deixou, além de saudades, um legado de vasos na minha varanda. Dentre eles, um tomateirus cerejeirus (nome que acabo de inventar, mas que achei bastante ilustrativo).

Confesso que não botei a menor fé naquilo. Eu até me esforçava, mas nunca achei que tomates escolheriam a minha casa como maternidade. Regava com atenção, dosava o sol, me preocupava nas viagens aos finais de semana.

Até que um dia, de manhã cedo, meu namorado me perguntou surpreso: “viu que nasceu um tomate?”. Eu desacreditei. Corremos para a varanda. Lá estava ele, verdinho, menor que uma ervilha. Em meio a essa nossa estranha ignorância e deslumbramento urbanos, ganhamos o dia com o tomatinho recém nascido.

Quando minha enteada chegou, mostramos o tomate. A carinha dela iluminou-se. Havia ensinado a pequena a conversar com as plantas, para que elas cresçam mais felizes, como sempre disse minha mãe. O tomateiro cerejeiro terminou por ganhar o posto de interlocutor preferido.

Algumas semanas se passaram, o tomatinho não cresceu muito. Chegou ao tamanho de uma azeitona mixuruca sem caroço. Mas ficou vermelhinho. O mesmo vermelho da camisa do São Paulo e do Benfica, uma feliz coincidência. O tomatinho não poderia adequar-se melhor àquela casa.

Decidimos que era a hora de colher o fruto. Fomos os três à varanda, que já denuncia as ameaças do inverno europeu através do vento noturno do outono, e arrancamos o tomate com tanta destreza quanto um ogro teria para tocar harpa.

Chegamos na cozinha, cortamos o tomatinho em três. Coube a cada um uma cota do tamanho de um pernilongo. Temperamos as microscópicas iguarias com o azeite da quinta da minha sogra e três pedrinhas de sal grosso. Levamos o banquete para a mesa da sala, acendemos o abajur e escolhemos a música.

Comemos o tomatinho. Era, seguramente, o melhor tomate do mundo. Porque ele tinha gosto de vínculos. Vínculo com amiga que foi, mas cuja presença ficou nas plantas. Gosto da rega compartilhada. Das conversas entre aquele pequeno arbusto e aquela pequena pessoa. Gosto da colheita equivocada, do tempero em miniatura, das nossas noites na mesa da sala, dividindo a vida inteira.

Obrigada tomatinho. Avise seus amigos nascituros que eles são muito bem-vindos à nossa varanda.

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