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Sérgio Augusto
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Tom, 90

O apelido foi dado pela irmã Helena, inspirada pela estrofe de uma canção francesa

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2017 | 02h00

A lagoa onde ele pescava (inclusive camarão) e nadava até o outro lado eu vejo todo dia. Há muito não é mais a mesma: em suas águas, outrora transparentes, cheias de conchas no fundo, quase ninguém mais se banha, alguns ainda pescam (de barco), outros esquiam ou andam de pedalinho. O mítico prédio da rua Nascimento Silva 107, em Ipanema, onde ele compôs as músicas de Orfeu da Conceição e as canções do LP Canção do Amor Demais, suas primeiras parcerias com Vinicius de Moraes, continua de pé; por ele passo com frequência. Quando comecei a pesquisar o que resultou no Cancioneiro Jobim (editado há 16 anos pela Casa da Palavra), encasquetei de peregrinar por todos os “lugares santos” do maestro, pelo menos os do Rio, mas ao intuir a frustração que me aguardava, desisti da empreitada.

 

Falo de residências, não de boates, botecos e outros locais públicos. Tom mudou um bocado de pouso na vida. Sua última morada carioca, no fim da rua Sara Vilela, alto Jardim Botânico, só mudou de dono. A da rua Codajás, no Jardim Pernambuco, condomínio de luxo do Leblon, onde ele compôs minhas duas preferidas (Sabiá e Wave), ainda existia em sua configuração original - na forma de um navio -, mas já ergueram outra em seu lugar. Também passo quase diariamente por outro 107 celebrizado por ele, na rua Barão da Torre, paralela à Nascimento Silva, há tempos um simpático hostel para jovens turistas, adrede batizado “Bonita” e promovido como “o lugar onde nasceu a canção Garota de Ipanema”. E também Corcovado, Samba do Avião e Ela É Carioca. Além de Bonita, cantada platônica na atriz Candice Bergen.

Quase ao final da mesma Barão da Torre, perto do Bar Vinte, viveu sua primeira temporada ipanemense, em 1931. Da casa, há décadas, não restam vestígios. Tom tinha apenas quatro anos e logo se mudou para o 68 da rua Constante Ramos, em Copacabana (hoje um prédio, claro), de onde, quatro anos depois, voltou para a fronteira de Ipanema com a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Pena que também não exista mais a casa de pedra de dois andares da Saddock de Sá 276. A rua não era calçada e aquele pedaço do bairro parecia uma restinga. Foi ali, dividindo o generoso espaço com mais 10 familiares, que ele descobriu seu pendor musical. Os fundos davam para um terreno baldio frontal à Lagoa, em cujos arredores, o que incluía a praia de Ipanema, o atlético Tom andava de bicicleta, soltava pipa e praticava esportes ligeiramente radicais, como escalar morros, subir em telhados, mergulhar das pedras do Arpoador e brincar de pirâmide humana (quebrou a quarta vértebra ao despencar de uma delas).

 

Numa volta da praia, o adolescente filho de Dona Nilza deu de cara na garagem com um piano Bechstein, que a mãe alugara para a filha Helena, quatro anos mais nova que Tom, tomar aulas com o professor Hans Joachim Koellreuter. Dedilhou, curioso, algumas notas, tomou gosto e também foi estudar com o professor. A sério, às vezes durante 10 horas seguidas. Foi naquelas aulas, praticando escalas, recebendo as primeiras noções de composição e harmonia, que descobriu que sua vocação não era a arquitetura. Os clássicos lhe chegaram pela professora Lúcia Branco. Com outro professor, Paulo Silva, aprofundou-se em harmonia e tomou lições de flauta, harmônica de boca e violão, que lhe facilitaram a formação de um conjunto de gaitistas, cujo palco era a praça General Osório, no coração de Ipanema. Para tirar sonecas vespertinas preferia, contudo, os bancos da praça Nossa Senhora da Paz.

Recém-casado com Thereza e precisando de renda para sair do quarto de empregada reformado pelo padrasto para acomodar o casal, no 307 da rua Redentor, Tom virou pianista de rádio, casas noturnas e gravadoras. Até que - bem, o resto da história é por demais manjado. Quanto à casa da Redentor, também se transfigurou num edifício. Minha desistência de um tour completo pelas residências do maestro não foi, portanto, motivada pela preguiça.

 

A mais preciosa, a casa natal, esta na certa soçobrou primeiro. No 634 da rua Conde de Bonfim, na Tijuca, encontramos um prosaico prédio que nem sei se de apartamentos ou escritórios. É possível que seja o segundo ou terceiro erguido naquele espaço, nas últimas oito décadas. E que ao menos tenha ocorrido à prefeitura colocar em sua fachada ou na calçada uma placa informando: “Aqui, em 25 de janeiro de 1927, nasceu o compositor Tom Jobim”.

 

Chovia a cântaros na noite em que Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, às 23h15, nasceu. Ironicamente, faltava água no bairro. Jorge e Nilza, os pais, só não entraram em parafuso porque Marcelo, tio materno, foi pegar água alhures e tia Yolanda desdobrou-se na cozinha para que não faltasse café para o obstetra José Rodrigues da Graça Mello. O doutor era um predestinado. Dezessete anos antes, perto dali, trouxera a este mundo um menino chamado Noel de Medeiros Rosa.

“Sou aquariano com ascendente em Libra”, gabava-se o maestro. “Como o libriano também é do ar, sempre me impressionei muito com os seres alados: passarinho, urubu, gavião.”

O Brasileiro herdou do avô materno, que por amor à pátria e ao positivismo, acrescentou-o ao seu Azor de Almeida. O Jobim recebeu do pai, professor de direito, jornalista, diplomata, poeta, com quem conviveu só até os 8 anos. Se o dr. Jorge não tivesse morrido tão cedo, talvez a música tivesse perdido Tom para a literatura, desconfiava o maestro, que no entanto se aproximou das letras por intermédio do avô positivista, dono de vasta biblioteca e seu mestre em todas as coisas ligadas à natureza, dos mistérios dos ventos aos nomes e cantos dos pássaros. 

Ao contrário do que o historiador José Ramos Tinhorão vivia a apregoar, o monossilábico Tom não foi uma americanice mercadológica, como Dick Farney e Johnny Alf, mas um apelido de infância que lhe deu a irmã Helena, inspirada pela estrofe de uma canção francesa, com um “tom-tom” de estribilho, que ninguém consegue identificar.

 

E se, na verdade, tivesse derivado de um hit musical de 1928, Button Up Your Overcoat? Ou da introdução de Night and Day (“like the beat beat of the tom tom”)? Perguntei isso ao maestro. Não soube me esclarecer.

Por que relembro todas essas miudezas sobre os primeiros anos do Tom? Porque me apeteceu saudar, com quatro dias de antecedência, os seus 90 anos, sem incorrer nos clichês encomiásticos de que eu mesmo já abusei bastante. Na próxima quarta-feira, ele completaria 90 anos. No dia seguinte, estaremos celebrando o centenário de outro Antonio Carlos: Antonio Callado. Abençoados sejam os nossos grandes Antonios - do padre Antonio Vieira ao professor Antonio Candido, este, afortunadamente, ainda vivo e mais lúcido do que todos nós juntos.

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Leia especial sobre os 90 anos de Tom Jobim no C2 deste domingo, 22

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