Tolstoi repensou a pedagogia e a política

Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, Bentinho acaba, por acaso, arrumando um interlocutor para discutir a Guerra da Criméia. "Os russos não hão de entrar em Constantinopla!", defende Manduca, o menino que "deitou-se ao debate, como a um remédio novo e radical". Bentinho considera seus argumentos irrespondíveis, mas o fato é que a Turquia resistiu. Na verdade, Machado de Assis serviu aqui apenas de pretexto para lembrar um dos episódios que marcaram a vida de Tolstoi: a Guerra da Criméia. Engajado como militar nos anos 1850, sob a influência de um irmão, em Sebastopol, escreveu, nesse período, contos que revelam sua visão da guerra com algo irracional, capaz de mostrar o melhor e, especialmente, o pior da humanidade. De uma família nobre, grande proprietária de terras na Rússia czarista - que preservou, até a Revolução de 1917, uma estrutura agrária medieval -, Tolstoi tornou-se um grande admirador da vida camponesa. Em 1859, depois de procurar se informar sobre métodos educativos, fundou em suas terras uma escola, destinada aos filhos dos servos da Iasnaia Poliana. Nascia uma experiência absolutamente nova, livre de vícios autoritários da educação do século 19, cujos métodos foram divulgados através de um jornal que recebeu o nome da fazenda. Tolstoi tornou-se, assim, um marco para o pensamento pedagógico progressista. Mas o respeito (e, por que não, um certo sentimento de culpa, dada a sua origem) de Tolstoi pelos camponeses e pelo que se convencionou chamar de povo não se restringiu à prática. Sua literatura está permeada por essa necessidade ética. Apesar de sua experiência militar, ou talvez até por conta dela, Tolstoi tornou-se um crítico dela. Em A Insubmissão (Imaginário), por exemplo, ele defende que os camponeses não devem deixar suas terras para se engajarem no serviço militar obrigatório. "Os governos europeus tratam de sobrepujar-se uns aos outros aumentando seu armamento e obrigando-se a adotar o expediente do serviço militar obrigatório como meio de engajamento de maior número de tropas ao menor custo possível. A Alemanha foi a primeira a elaborar este plano, e logo após ser colocado em prática por uma nação, as outras se apressaram em seguir o exemplo", escreve. Um texto muito semelhante - mas mais contundente -, abre um dos capítulos de Guerra e Paz: "Pelos fins de 1811 tiveram início o armamento intensivo e a concentração de forças na Europa Ocidental, e, em 1812, essas forças - milhões de homens, incluindo os que transportavam e aprovisionavam esse exército - rumaram do oeste para leste, na direção das fronteiras russas onde, desde 1811, nossas forças também estavam concentradas (...). Milhões de homens praticaram uns contra os outros crimes, embustes, traições, roubos, fraudes, pilhagens, incêndios, morticínios, ainda mais numerosos que os registrados em todos os tribunais do mundo, e toda essa gente, autora de tantas atrocidades, não as considerava como tais." No fim de sua vida, Tolstoi viveu uma crise religiosa. Sua resistência aos dogmas levou-o a ser, inclusive, excomungado. Suas posições também não eram as mesmas dos anarquistas russos, que recorreram ao terrorismo, numa estratégia que só os fez perder legitimidade. Hoje, é bem diferente. Tendo vivido no mesmo século 19 de Dostoievski, Flaubert, Chekhov (que dizia ler Guerra e Paz todas as noites), Rodin e Marx, Tolstoi é uma referência não apenas para bons leitores, mas também para pedagogos, anarquistas, socialistas (Lenin lhe dedicou Leon Tolstoi - Espelho da Revolução Russa) e cristãos.

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