Tolstói, o cáucaso e seus paradoxos

AURORA F. BERNARDINI

AURORA F. BERNARDINI É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA RUSSA DA USP, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2013 | 14h43

Chegaram às livrarias, nesse fim de 2012, duas traduções concomitantes de Os Cossacos, o primeiro romance do conde Lev Nikoláevitch Tolstói (1828-1910).

Ambas têm méritos, ambas têm alguns deslizes: a primeira, da Amarylis, mais literal, acerta na complicada acentuação dos nomes russos e nas transliterações, traduzindo - às vezes de maneira insólita - até os nomes de objetos de uso e expressões de costumes locais, mas deixando de lado porém a tradução do sortilégio "Vos saúdo" que o velho Erochka ensina ao cossaco Luká, o principal protagonista do romance. A segunda, da Livros da Matriz, mais literária, apesar de umas poucas oscilações na transliteração, transcreve os termos caucasianos originais e faz acompanhar o livro por um glossário, o que aumenta o sabor exótico do texto. Cabe dizer que ambas as traduções são fiéis ao original e que ambas são introduzidas por excelentes apresentações, a primeira de Natalia Quintero e a segunda, da própria tradutora, Sonia Branco.

O fascínio pelo Cáucaso - o "Oriente dos russos", tal como o definiu a crítica - já tão presente em Púchkin e em Lérmontov, foi algo que acompanhou Tolstói desde a primeira juventude, até, praticamente, o fim de seus dias.

Órfão de mãe aos 2 anos e de pai aos 9, Tolstói, entregue às tias, teve uma formação irregular: tentou várias faculdades, viveu um período de dissipação na capital até, em 1851, seguindo o rastro do irmão Nikolai, a quem era muito apegado, ir para o Cáucaso e depois de pouco tempo se alistar no Exército como atirador de quarta classe. Lá permaneceu até 1854, quando se transferiu para o Exército da Crimeia, para vir a dar baixa definitivamente em 1856. Apesar de já constarem de seus Diários muitas anotações para o romance que iria escrever, só um ano após sua chegada ao Cáucaso é que começou a trabalhar em Os Cossacos que, entremeado por uma série de outras publicações, só viria a ser amadurecido e acabado, transformando-se em obra "plástica", de ação bem urdida e de interpretações psicológicas cativantes, dez anos depois, por ocasião de seu casamento (1862), como pagamento de uma dívida prévia de jogo.

Curiosamente, et pour cause, também o último romance de Tolstói, Khadji-Murát (tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman, Cultrix, 1886 e Cosac Naify, 2009), iniciado em 1904 e publicado postumamente, é ambientando no Cáucaso e tem como protagonista principal não um personagem escolhido entre os cossacos (que, embora não se submetendo à autoridade do czar, mantinham alianças com seu exército), mas um inimigo, um "abreque", um herói da Tchetchênia, região ao norte da Geórgia que, após décadas de hostilidades, os russos só conseguiram anexar ao Império em 1859.

O romance Os Cossacos é ambientado nas margens do rio Terek, que corre do centro ao norte do Cáucaso, desembocando no Mar Cáspio, o mesmo rio e o mesmo habitat que Mikhail Lérmontov (1814-1841) imortalizou em sua famosa Canção de Ninar Cossaca.

As duas introduções mencionadas comentam os efeitos dessa ambiência primordial, da admirável comunhão homem-natureza, que levam Olénin, o nobre e descrente oficial russo, protagonista "ocidental" de Os Cossacos (e alter ego do jovem autor), por um lado, a considerar que "o progresso não tornará o homem melhor" e que o homem só poderá sentir-se livre "na relação com os elementos primários que o constituem, na vida simples em contato com a natureza da qual ele é parte" e, por outro lado, a descobrir que o sentido da vida (ser feliz) significava amar os outros, "viver para os outros, como vive cada ser na natureza". Duas teses tolstoianas, essas, que vão reaparecer em quase todos seus escritos posteriores. Mas há vários outros reparos que mereceriam consideração. Um deles, realçado na introdução de Schnaiderman a Khadji-Murát e atribuído ao crítico russo V. Manuílov, chama a atenção para a questão das "famosas contradições tolstoianas". Como é que o pregador da "não resistência ao mal" sucumbe ao artista que cria tipos másculos de grande vigor guerreiro, como Khadji-Murát ou o próprio Luká de Os Cossacos que, ovacionado por seu povo e condecorado pelos russos, acaba de matar um tchetcheno, e à interpelação de Olénin: - Está feliz com o quê? (...) Se matassem seu irmão você se alegraria? responde laconicamente - E daí - as coisas são assim. Acaso eles não matam nossos irmãos?

Outro exemplo observa-se quando o jovem Olénin, apaixonado como Luká pela bela Marianka, acaba deixando o Cáucaso e pedindo às autoridades que o integrem, conforme proposto, ao estado-maior. "Tolstói"- conclui Sonia Branco - "apesar de crer na existência de uma vida essencial a ser alcançada pela experiência de uma subjetividade autêntica, termina por admitir a inevitabilidade do retorno ao mundo convencional".

Last but not least, ainda a questão do amor. Tão abrangente em Tolstói que uma espécie de homossexualismo transparece não apenas em seus Diários, mas mesmo em Os Cossacos (nas relações entre Olénin e Luká "algo semelhante ao amor se fazia sentir entre esses dois jovens tão diferentes"), tendo sempre, porém, um destino platônico.

Nesse mesmo romance a energia amorosa é tão intensa que se converte em pansexualismo, quando em Marianka ele crê amar a natureza. Porém, embora o jovem Tolstói, até seu casamento, tenha sido como ele mesmo se definiu "um libertino" - contraditoriamente, ou devido a isso mesmo - em seus escritos não apenas as relações sexuais são condenadas - e Sonata a Kreutzer é um exemplo notório desse viés moralista radical - mas a própria atração, tão realisticamente descrita em Os Cossacos, não escapa de ser qualificada por Olénin como "vulgar".

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