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Tolstoi e Rússia, sem final feliz

Escritor sempre foi figura polêmica em seu país - e isso continua, mesmo cem anos após sua morte

Ellen Barry e Sophia Kishkovsky, The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2011 | 00h00

Há cerca de dois meses, um dos mais velhos estadistas da Rússia decidiu empreender uma missão paradoxal: reabilitar uma das figuras mais amadas da história russa, Tolstoi.

A empreitada pareceria desnecessária em 2010, um século depois da morte do autor. Mas no ano passado os russos ainda discutiam a respeito de Tolstoi, como acontecia quando ele era vivo. Os intelectuais acusavam a Igreja Ortodoxa russa de ter posto na lista negra um herói nacional. A Igreja o acusava de contribuir para acelerar a ascensão dos bolcheviques. O melodrama dos últimos dias de sua vida, quando o escritor abandonou a casa da família para levar uma vida de asceta, foi ressuscitada em todos os seus detalhes mais íntimos, como uma espécie de reality-show da TV.

Por outro lado, em um país que raramente deixa passar em branco uma comemoração pública, o aniversário da sua morte, no dia 20 de novembro de 1910, não foi lembrado com espetáculos de gala ou grandes exibições cinematográficas patrocinadas pelo governo. Do ponto de vista oficial, mal foi notado.

Tendo isso em mente, o ex-primeiro-ministro Serguei V. Stepashin resolveu escrever para o chefe da Igreja Ortodoxa russa, que se tornou um árbitro em matéria de política e cultura. Em linguagem meticulosamente diplomática, reconhecendo "o caráter particularmente sensível" deste "tema delicado", Stepashin pediu perdão em nome de Tolstoi, que foi excomungado há 110 anos.

Emoção. O impulso surgiu de uma visita solitária a um montículo de terra sem nome, debaixo do qual Tolstoi está enterrado. Stepashin descreveu a visita - que data da época em que era diretor do Serviço Federal de Segurança, sucessor do KGB - como uma experiência carregada de emoção que ele não consegue esquecer.

"Você olha a casa onde ele viveu e trabalhou, onde criou suas obras, e depois visita este lugar onde não há nada, apenas um monte de terra", disse Stepashin. "É uma coisa tocante, tanto em termos humanos quanto morais. Então decidi escrever a carta." A ambivalência em relação a Tolstoi é uma novidade na Rússia.

Os soviéticos colocaram o escritor no ponto mais alto do seu panteão literário, em grande parte por causa da filosofia radical que ele pregou em meio aos primeiros estrondos da Revolução de Outubro. A publicação de Guerra e Paz e de Anna Karenina tornou Tolstoi tão famoso que um contemporâneo o descreveu como o segundo czar da Rússia. Ele usou essa posição para protestar veementemente contra a Igreja, a polícia, o Exército, o consumo de carne, a propriedade privada e todas as formas de violência.

Lenin adorava o "ódio reprimido" de Tolstoi, e considerou o escritor "o espelho da Revolução Russa", ignorando seu pacifismo e sua fé em Deus. Perto do seu 50.º aniversário, o Comitê Central do Partido Comunista começou a preparar, com dois anos de antecedência, um monumento que seria inaugurado nas comemorações.

Para o seu centenário, na Rússia, já cansada de pensamentos utópicos, não houve nada do gênero. Ao contrário, em 2010, Chekhov recebeu amplos tributos oficiais pelo 150.º aniversário do seu nascimento, inclusive uma visita do presidente Dmitry Medvedev ao local onde o escritor nasceu.

Um filme biográfico romanceado sobre Tolstoi, repleta de grandes astros, A Última Estação, lançado em Moscou pouco antes do seu aniversário, foi rodado na Alemanha, com atores britânicos e dirigido por um americano. O diretor russo, Andrei Konchalovsky, produtor do filme, disse que pediu oficialmente o apoio financeiro de "todos os ministérios" do governo russo, mas, no final, foi obrigado a colocar dinheiro do seu bolso. "Eu represento a Rússia", afirmou, com um sorriso irônico, durante a promoção do filme.

Nada disso surpreendeu Vladimir I. Tolstoi, tataraneto de Tolstoi, diretor do museu de Yasnaya Polyana, propriedade para onde o autor costumava se retirar.

Vladimir Tolstoi, 48, tem a aparência ávida e esguia de um intelectual de profissão, contudo seu sobrenome exigiu que ele se lançasse na vida política. Ele trabalhou em uma das campanhas presidenciais do primeiro-ministro Vladimir V. Putin, e atende as autoridades da área quando precisam da "autoridade ou do prestígio de Tolstoi", como afirmou.

Banquete. Há dez anos, ele pediu à Igreja que revisasse a sentença de excomunhão do seu tataravô, de 1901. Não obteve nenhuma resposta. Embora não tenha desistido de seus esforços - um visitante de Yasnaya Polyana lembra de uma mesa de banquete preparada no pomar para o bispo local - Tolstoi disse que não tem esperança.

Além de uma recepção realizada pelo ministro da Cultura, o aniversário passou "com o proposital esquecimento de Tolstoi", afirmou. "O poder procura adaptar os grandes cidadãos às suas necessidades. As autoridades atuais não o adaptaram, ou não são suficientemente hábeis para tanto. Talvez tenham tanta confiança em si mesmas que acham que não precisam fazer isso."

Foi um alívio quando Stepashin resolveu se unir aos seus esforços. Eles se conheceram há cerca de 15 anos, quando Stepashin, então diretor do Serviço Federal de Segurança, entregou a Tolstoi pilhas de cartas da família retiradas dos arquivos da inteligência soviética.

Stepashin, que lembra ter passado em claro duas noites, aos 10 anos de idade, para terminar o romance Ressurreição de Tolstoi, é também da opinião de que o escritor está sendo menosprezado. "Compreendi que provavelmente não havia nenhuma intenção de reintegrá-lo à Igreja", disse Stepashin, atualmente presidente da União dos Editores de Livros da Rússia. "No entanto, eu contava com uma mudança de sua atitude para com ele como pessoa, como uma pessoa que tanto fez pela cultura e pela língua russa." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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