Tolstói, afinado com o teatro

O Cadáver Vivo consagra talento do russo em textos concebidos para o palco

BORIS SCHNAIDERMAN, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

A dramaturgia de Tolstói (1828- 1910) não recebeu, salvo poucas exceções, o devido apreço no Ocidente. Assim, lemos no artigo dedicado a sua obra na Macropaedia da Enciclopédia Britânica (1995): "... Faltavam-lhe algumas das qualificações necessárias ao dramaturgo, e embora em certa medida, ele tenha obtido êxito, suas peças são artisticamente inferiores a sua ficção."

Temos aí uma grande injustiça, pelo menos em relação a duas de suas peças: Os Frutos da Instrução e O Cadáver Vivo, verdadeiras obras-primas, dignas de figurar ao lado de seus romances e novelas.

Aliás, a crítica russa já mostrou sobejamente que seu talento dramático se manifesta na própria ficção, e isto pode ser confirmado facilmente pela leitura.

Se em Os Frutos da Instrução - título que é uma verdadeira caçoada - ele se volta contra a mistura do mais grosseiro positivismo e de um espiritismo de salão, O Cadáver Vivo aparece entre as obras com que ele fustigou o sistema judiciário, sendo uma de suas manifestações vigorosas neste sentido, ao lado de A Morte de Ivan Ilitch (1886) e de muitas páginas de Ressurreição (1899). Mas, ao voltar-se contra estas mazelas de seu país, Tolstói na realidade aponta agudamente para alguns problemas dolorosos com que nos defrontamos até hoje.

Na peça, trata-se de um casal da nobreza russa, Lisa e Fiódor. O marido é um homem fraco, que se entrega à bebida e tem amante cigana, mas, ao mesmo tempo, ele não quer ser empecilho a que Lisa possa ser feliz com seu amigo de juventude, Victor Karênin. (Haveria talvez algo simbólico nesta relação com Ana Karênina, 1875-1877). Fiódor deixa, pois, uma carta de despedida, finge um suicídio e desaparece. Mas o embuste é descoberto, prendem-no, o caso vai a julgamento, e no decorrer deste, ele se suicida de fato.

Resumido assim, o caso parece folhetinesco e, mesmo, inverossímil, mas a peça baseia-se em fatos que realmente aconteceram. Escrita pouco antes da morte de Tolstói, este a manteve inédita a pedido da família dos envolvidos, mas depois ela se tornou uma das mais consagradas na Rússia. Traduzida para o português, e bem traduzida, ela aparece agora nas livrarias. Esperemos, portanto, vê-la brevemente em nossos palcos.

BORIS SCHNAIDERMAN, PROFESSOR EMÉRITO DA USP, É TRADUTOR DE TOLSTÓI E DOSTOIÉVSKI, ENTRE OUTROS AUTORES RUSSOS

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