Todos querem um Assento na Academia

Todos querem um Assento na Academia

Disputa pela vaga de José Mindlin é uma das mais acirradas em 20 anos

Márcia Vieira, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Não faltam aspirantes à imortalidade. É assim desde o tempo em que Machado de Assis e um grupo de intelectuais se reuniram numa salinha emprestada no Centro do Rio, no fim do século 19, para criar a Academia Brasileira de Letras. Em 123 anos, a atração que a casa exerce entre uma boa parcela da intelectualidade brasileira só fez aumentar. O assédio é tão intenso que Marcos Vilaça, atual presidente, contabilizou um a um os pretendentes. Chegou a uma lista de 43 interessados esperando a hora certa de se candidatar. Com tantos pretendentes, chama atenção que apenas 4 tenham se inscrito na eleição para a cadeira 29, vaga desde 28 de fevereiro com a morte de José Mindlin.

Prova de que não basta querer ser um imortal. "É preciso saber o momento exato de apresentar a candidatura", ensina o acadêmico Domício Proença Filho. Estratégia é fundamental. Medalhões como o crítico Antonio Candido, que nunca aceitou se candidatar, são sempre bem-vindos. Mas não há um critério claro que justifique a escolha de cada 1 dos 40 acadêmicos. Nem sempre o que mais conta são os dotes literários ou intelectuais do candidato. Vale muito mais amizade e simpatia do que capacidade intelectual.

A eleição do dia 2 de junho é uma das mais disputadas dos últimos 20 anos. O favorito até agora é o embaixador Geraldo Holanda Cavalcanti, de 81 anos, famoso por suas traduções de poetas italianos. Seu livro de estreia, Encontro em Ouro Preto, foi finalista do Prêmio Jabuti e mereceu elogios entusiasmados do imortal Moacyr Scliar. Corre por fora o ministro do Supremo Tribunal Federal, Eros Grau, de 69 anos, que conta com o precioso apoio do senador José Sarney. O presidente do Senado é o acadêmico mais antigo e tem muita influência na casa, apesar de só aparecer no Petit Trianon, sede da ABL, em raras ocasiões.

Grau é autor de livros jurídicos e apenas um romance, o polêmico Triângulo no Ponto, que chamou mais atenção pelas suas descrições eróticas do que pelo estilo do autor. Também está na disputa o presidente da Biblioteca Nacional, Muniz Sodré, autor de livros sobre teoria da comunicação e amigo de vários acadêmicos. O estranho no ninho é Martinho da Vila, de 72 anos, autor de sambas magistrais e de dez livros infantis. "Eu me candidatei porque sou sempre convidado para os eventos da Academia. Alguns acadêmicos viviam me dizendo "você tem que ser um dos nossos". Resolvi tentar." Ainda não se arrependeu, mas não imaginou que seria tão formal.

Martinho estranhou a liturgia que o candidato à imortalidade tem de cumprir. De fato, é um ritual sui generis. Não basta comunicar ao presidente por carta a intenção de disputar a eleição. É preciso enviar telegramas a cada um dos 39 acadêmicos anunciando a sua candidatura. "Não serve e-mail. Tem de ser por telegrama", estranha Martinho. Em seguida, o candidato manda um livro de sua autoria. É de bom tom também fazer visitas aos acadêmicos e promover almoços.

Cartilha. Nada disso combina com o estilo de Martinho. "Não fico muito ligado nesse negócio de fazer campanha. Se quiserem me ter na casa, ficarei feliz. Se não for eleito, não vou ficar aborrecido." Eros Grau, ao contrário, segue a cartilha do bom candidato. Não dá entrevistas porque aprendeu que quanto menos aparecer nos jornais melhor. Segue um roteiro de visitas aos acadêmicos no Rio, apesar de morar em Brasília. Há 15 dias esteve na sede da Academia para encontrar Ana Maria Machado, secretária-geral da casa. Como de praxe, levou um livro, mas preferiu um de tema jurídico em vez do romance erótico.

Muniz Sodré também segue à risca a regra de não dar entrevistas, mas ainda não começou o périplo de visitas. Geraldo Holanda Cavalcanti é o que mais conhece os meandros da casa de Machado de Assis. Frequenta a ABL há dez anos. Antes mesmo de surgir uma vaga, mandou uma carta anunciando que um dia adoraria ser candidato. Tem o apoio de acadêmicos influentes, como Eduardo Portela e Tarcísio Padilha. Cordial, aceitou fazer por escrito uma declaração sobre a sua tentativa para ocupar a cadeira que foi de seu amigo José Mindlin. "Os acadêmicos votam soberanamente levando em conta, por um lado, a apreciação que já tenham da personalidade e da obra dos candidatos e, por outro, a contribuição que deles esperam", escreveu.

Cavalcanti é casado com Dirce, filha de Dilermando de Assis, o homem que matou, numa troca de tiros, o imortal Euclides da Cunha. "Isso não faz diferença para a Academia", garante Domício. O que pesa mesmo nesta eleição é a fidelidade dos amigos. E qual dos quatro é o mais querido? "É muito difícil qualquer prognóstico. A eleição está muito disputada", diz um acadêmico.

A disputa está tão ferrenha que afastou candidatos. Fernando Henrique Cardoso nega que tenha pensado em se candidatar, mas o que circula na ABL é que ele espera um momento mais propício. Há tempos que o seu nome circula entre os imortais. "Ele não quer cumprir as formalidades, quer fazer como Getúlio Vargas", diz um acadêmico que não concorda com a estratégia. A entrada de Vargas é uma página negra na história da ABL. Durante o Estado Novo, Vargas foi eleito por aclamação. Sem concorrentes e sem enviar a tal carta.

Ziraldo. Atualmente, quem mais corteja os imortais, apesar de não ser candidato, é Ziraldo. Ele está sempre por lá apesar, de ter sido derrotado em 2008, quando disputou com outros 21 pretendentes a cadeira que pertenceu a Machado de Assis. "O Vilaça o aconselhou a esperar mais um pouco", diz outro acadêmico que acompanha de perto a saga do criador do Menino Maluquinho. O cerco de Ziraldo e outros escritores aos imortais reforça o prestígio da Academia. "Ser imortal é um privilégio", orgulha-se Vilaça. Além do prestígio que a imortalidade traz, cada acadêmico recebe jetons de R$ 1 mil por cada sessão semanal que comparece, além de plano de saúde e mausoléu no cemitério.

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