Todos querem Dudamel. Até quando?

'Será que estamos vivendo uma distorção profissional? Qual a maturidade necessária para que um maestro interprete com profundidade obras de mais peso?'

John Neschling, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2010 | 00h00

Gustavo Dudamel é o nome do momento. Ao menos o é até hoje. Amanhã, não se sabe, talvez outro o tenha substituído nos corações dos agentes e das orquestras, talvez a perversidade do mercado o tenha devorado. De repente se transforma num Michael Tilson-Thomas ou num James Levine das próximas décadas. Qualquer previsão mais específica seria exercício de pitonisa, e não creio que ninguém mais sério do mundo musical se arriscaria a tal aventura de futurologia.

A aparição de regentes jovens é na verdade uma novidade surgida na década de 1960, com dois rapazes egressos da escola de Hans Swarowsky que, como num passe de mágica, saíram de uma academia de música e foram catapultados à fama num abrir e fechar de partituras. Tratava-se de Zubin Mehta e Claudio Abbado. Este último estreou no La Scala de Milão com 27 anos e não parou mais de brilhar no céu de estrelas do pódio. Com Zubin Mehta, a história não foi muito diferente: aos 24 anos já era regente titular da Orquestra Sinfônica de Montreal e, aos 26, após ser nomeado assistente da Orquestra Sinfônica de Los Angeles, sem que seu titular Georg Solti tivesse sido consultado, assumiu a titularidade da orquestra com a renúncia do chefe "traído".

Daí por diante tem sido uma enxurrada de jovens que apareceram de um dia para outro, alguns se firmando no mercado, outros sendo expelidos sem dó nem piedade após um curto momento de esplendor. Foi um período em que o mercado parece que não queria mais confiar em ninguém com mais de trinta anos.

Será que estamos vivendo uma distorção profissional? É difícil julgar este fenômeno num contexto meramente musical. Qual a maturidade necessária para que um maestro interprete com profundidade obras de mais peso?

John Elliot Gardiner, mestre inglês da velha guarda, afirma, tendo em vista a fila de semi-adolescentes que ocupa os pódios mundiais, que a vida de um maestro é fácil antes dos 25 anos, quando são todos talentos geniais, e depois dos 65, quando se transformam em sábios da batuta. Entre essa duas idades, a profissão é dura.

O fenômeno Dudamel tem suas peculiaridades. Ele é egresso de um "sistema" implantado na Venezuela, um país em que a criação de centenas de orquestras juvenis nas últimas décadas teve um resultado sociocultural notável, culminando com a aparição de uma Orquestra Jovem Nacional de inegável qualidade. É esse o grupo que vem se apresentando em festivais e salas de concerto de todo o mundo como uma joia da coroa de Hugo Chávez. Seu regente nos últimos anos tem sido Gustavo Dudamel.

Dudamel venceu ainda um importante concurso internacional para jovens maestros e tornou-se, quase menino, assistente de Lorin Maazel. Daí em diante seu carisma cuidou do resto.

Tenho assistido a diversas gravações em vídeo do jovem maestro, e mesmo com a dificuldade de julgar o resultado a partir desse produto, pude constatar que estava observando um dos maiores carismas musicais com que me defrontei em toda a minha vida de músico. Não se trata aqui da qualidade da execução daquilo que vi e ouvi, mas sim da musicalidade e do encanto que fluem naturalmente da regência do venezuelano. Foi-me impossível desviar os olhos de seus gestos, do seu olhar. Percebi um alegre fascínio que esse jovem transmitia aos intérpretes. A música simplesmente fluía de sua batuta como a eletricidade num cabo de alta tensão. Se parte desse fascínio atinge as orquestras que Dudamel rege, é provável que seus músicos fiquem literalmente hipnotizados.

No entanto, ao assistir a alguns momentos de trabalho de ensaio, nos quais é preciso passar verbalmente as suas ideias para a orquestra e quando a concepção musical tem de ser explicada por meio de um discurso bem estruturado, deparei-me com um jovem com pouca coisa importante a dizer. Uma figura carismática e talentosa como Dudamel pode hipnotizar o público e uma orquestra durante algum tempo, mas pode também, uma vez esse hipnotismo interrompido, ver destruída a ilusão, caso não permaneça um trabalho interpretativo profundo e inovador.

Em Los Angeles, onde Dudamel recentemente assumiu a posição de maestro titular da Filarmônica, e onde a atmosfera hollywoodiana sabidamente domina a cidade, Dudamel estreou como uma estrela de cinema. O marketing inédito que se fez em torno do jovem venezuelano fez com que o público aumentasse antes mesmo da temporada se iniciar, e o mercado enlouqueceu com a perspectiva de uma nova estrela no firmamento, num segmento do show business que está urgentemente necessitado desse impulso.

Primeiras críticas mais ácidas a um Dudamel acostumado a louvações acabam de surgir em Chicago e na Filadélfia. De minha parte, penso que a maturidade é fundamental para o trabalho de um maestro. A experiência musical de longos anos de trabalho é tão ou mais importante do que o carisma, o talento e a propensão física para a profissão. A figura do maestro, na primeira metade do século passado, foi sempre identificada com o senhor de cabelos brancos e mau humor. Embora essa visão seja como tantas outras, estereotipada, ela correspondia de certa forma à realidade. Eram necessários "anos de galera" para que um grande talento musical se firmasse à frente de um conjunto de músicos, para que sua experiência se transmutasse em capacidade de liderança musical e interpretativa.

Não resta a menor dúvida de que no caso de Gustavo Dudamel estamos frente a um grande regente em potencial. Mas só a sua capacidade de sobreviver a esse Tsunami mercadológico e a essa expectativa irreal que o cerca é que nos mostrará se teremos, nos próximos anos, um referencial de regência nesse jovem. Só o tempo nos dirá se ele se converterá num grande músico, a exemplo dos grandes mestres do passado. Esses, justamente em consequência da perversidade do mercado atual, vêm se tornando mais e mais raros.

JOHN NESCHLING É MAESTRO

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