Todos os embates de se conviver

Rútilo Nada, inspirado em Hilda Hilst, testou os tipos de relacionamentos

, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2010 | 00h00

Os sentimentos vastos não têm nome. É com essa frase que se inicia Rútilo Nada (1993), texto que acompanha dois outros, A Obscena Senhora D e Quadós, no livro que faz a passagem da trilogia eroticosarcástica de Hilda Hilst (1930-2004) para sua última publicação em vida, Estar Sendo Ter Sido. Rútilo Nada é também o nome do primeiro trabalho de dança da dupla Donizetti Mazonas e Wellington Duarte, e de Daniel Fagundes na direção, que na semana passada participou do Semanas de Dança, no Centro Cultural São Paulo.

Além de Hilda Hilst, no texto que assina no programa, Fagundes arrola referências aos pintores Francis Bacon e Giovanni Serodine, ao fotógrafo E. Muybridge, ao filósofo Giorgio Agamben, e ao músico Arnold Schoenberg. Mas não se assuste, pois a obra se sustenta mesmo sem a identificação de todas essas referências.

Em cena, Donizzetti e Wellington testam diferentes tipos de relacionamento, dos embates aos embolamentos que os tornam indistintos, dos acordos às impossibilidades de convívio que os mantém apartados. A maestria desses dois intérpretes guia nosso olhar, sobretudo a fluência da movimentação de Wellington Duarte, que jorra em um fluxo que não para de desvelar mais e mais gestos, com a urgência do que parece indispensável.

Lucius Kod, personagem do texto de Hilda, mesmo sem a roupa imunda que ela descreve, surge ali, atirando-se sobre o caixão do jovem Lucas, seu amante, que fora violentamente assassinado. No lugar do caixão, uma parede de sacos de entulho/lixo, exteriorizando a ambiguidade da beleza que estava em Lucas, e que a morte transformou em carcaça.

Com poucos objetos, a cenógrafa e figurinista Anna Cerutti projetou um espaço no qual vamos adentrando como arqueólogos que identificam as suas camadas. A iluminação de Hernandes de Oliveira desenha esse caminho, que vai adentrando em si mesmo como a circularidade da corrida de Donizzetti.

Elegante e limpo, esse cenário materializa o jogo entre turbulência e imobilidade que está no quadro que, mais para o fim, o espetáculo cita. Wellington e Donizzetti põem-se de frente, de pé, quase grudando seus corpos, nariz com nariz, como o dos apóstolos Pedro e Paulo pintados por Giovanni Serodine (1600-1630) no quadro La Separazione Dei Santi Pietro e Paolo Condotti al Martírio (1620-1625). Encontram-se a caminho de seu martírio, e estão em tamanha proximidade que um não consegue ver o outro. A situação nos põe a pensar sobre que tipo de convivência seria aquela - a da proximidade mais radical que impede o reconhecimento do outro.

Agamben. Sempre que vemos algo de muito perto, só conseguimos enxergar um pedaço, que não revela a inteireza do que está sendo observado. Esse é o momento de lembrar o que o filósofo Giorgio Agamben fala sobre a amizade. Para ele, a amizade surge de um compartilhar, é um "con-sentimento".

Lucius Kod precisa confessar o que não pode nomear. O que é que o narrador em primeira pessoa cala quando confessa? Ele confessa ou rememora? Com material, intérpretes e colaboradores da melhor qualidade, falta a esse Rútilo Nada ajustar a relação entre textos (ditos e projetados) com tudo aquilo que os corpos já falam sem eles.

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