Todos os curtas do mundo

São 400 filmes de 30 países, incluindo os recentes vencedores de Gramado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

No ano da sua maioridade - 21 anos -, o Festival Internacional de Curtas de São Paulo, promovido pela Associação Kinoforum, segue sendo a grande vitrine do formato no País. Quando Zita Carvalhosa criou o evento, nos anos 1980, parecia coisa de lunáticos (leia entrevista). O curta tendia a ser olhado superficialmente como uma espécie de aprendizado para o longa. Logo, com o desmantelamento do sistema de produção e comercialização no governo Collor, o curta virou praticamente o único formato do cinema brasileiro e viveu um apogeu. Desde então, os mais importantes festivais do Brasil abrem espaço para ele, mas o de São Paulo, justamente por ser especializado, é o ponto de encontro entre a produção latino-americana e internacional, além de promover o intercâmbio de experiências culturais, econômicas e políticas.

Vai começar tudo de novo. Até dia 27, será possível dar a volta ao mundo somente assistindo a filmes curtos. São 146 títulos do Brasil, distribuídos em três seções (Mostra Brasil, Panorama Paulista e Cinema em Curso). No total, o festival vai exibir mais de 400 filmes de 30 países. E a participação poderá se dar também por meio das mídias sociais - twitter, Facebook, Orkut, Youtube, etc. A mostra nacional traz à cidade os curtas vencedores do recente Festival de Gramado. Aqui mesmo, no Caderno 2, você já ouviu falar maravilhas de Haruo Ohara, Amigos Bizarros de Ricardinho, Carreto, Babás, Anjos no Meio da Praça, etc. Agora, é só uma questão de se programar para poder assistir a todos esses belíssimos filmes (e a muitos mais).

O interessante é que existem mostras para todos os gostos - infanto-juvenil, Dark Side e Fucking Different, com curtas proibidos até 18 anos,. A ideia é mapear as novas tendências do formato, no País e no exterior. Entre uma projeção e outra - e um seminário e outro, para discutir curta e mercado -, o festival oferece happy hours. Afinal, não é porque o filme é curto que seus autores têm de ser de ferro.

Diversidade. Em Gramado, o codiretor Alê Camargo contou que Anjos nasceu de um sonho que teve - literalmente. As imagens desses anjos caídos numa praça e aprisionados por humanos atiçou seu imaginário e, com a cumplicidade da mulher - Camila Carrossine -, ele fez o curta em 3-D, incorporando experiências visuais de um filme conhecido do grande público, Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet. As pesquisas de Rodrigo Grota vão em outra direção e, em Haruo Ohara, ele fecha sua admirável trilogia sobre Londrina. Aos críticos que o acusam de formalismo - em Satori Uso e Booker Pittman -, Grota responde agora com a humanidade deste filme sobre o fotógrafo japonês que, ao longo de 50 anos, documentou a vida na região por meio de 20 mil fotos. Em impecável preto e branco, o cineasta reflete sobre a fotografia - e o cinema - como armas contra o esquecimento. No debate em Gramado, Grota e seu diretor de fotografia, Carlos Ebert, confessaram que o trabalho de Haruo Ohara já havia sido a referência para o visual dos títulos precedentes da trilogia.

Babás, de Consuelo Lins, consegue traçar um retrato muito rico das relações afetivas e de classe na sociedade brasileira somente por meio das histórias de babás. No passado escravocrata, elas eram amas de leite. Hoje, uniformizadas, cuidam de crianças burguesas para que suas mães possam desempenhar, longe do lar, a vida profissional. Amigos Bizarros de Ricardinho, de Augusto Canani, é uma pequena joia sobre jovem que resiste à pressão do ambiente corporativo, numa agência de publicidade, contando "causos" para seus colegas. E não se pode esquecer de Recife Frio, de Kleber Mendonça, premiado nos festivais de Brasília e Recife, nem de Bailão, de Marcelo Caetano, que conta histórias de resistência desses velhos homossexuais que sobreviveram à repressão e à aids para poder dançar hoje em dia no salão do título.

No Festival de Tiradentes, exibido em praça pública, Bailão foi um dos filmes mais aplaudidos - por famílias, que, em princípio, não seriam o público mais adequado para o filme, mas por que não? A mágica é que Bailão realmente vence preconceitos, transpõe segmentos e gerações. Duas importantes mostras internacionais resgatam os 40 anos do Festival de Tampere e também o de Sapporo. Você poderá assistir a um fascinante panorama do cinema curto da Finlândia (Além da Cerca, Cavalinho, Colheita) e também do japonês (A Mulher Que Faz a Terra Pulsar, Ishi no Oto, Quando Eu Emudecer). Aires Argentinos oferece uma seleção de curtas produzidos na Argentina (50 Anos na Lua, Amor Auto Adesivo) e Imagens Narrativas traz contribuições de todo o mundo - França (Alongamento), Cazaquistão (Êxodo), Grécia (Interstícios). E haja fôlego para tantos curtas.

PERGUNTAS & RESPOSTAS

Zita e o balanço dos 21 anos

1.

O que mudou no festival?

Quando ele surgiu, a gente ainda se comunicava por meio de fax com a imprensa e os convidados. Os filmes eram em 35 mm, para exibição em cinema. Hoje, os suportes são muitos e o próprio conceito de mercado se diversificou.

2.

E a Kinoforum?

Também mudou. A associação foi criada para realizar o festival e hoje o supera como fórum de ideias e oficinas.

3.

O que você indica este ano?Recomendo sempre qualquer sessão, na expectativa de que o público goste. Em geral, é o que ocorre. O festival era fechado e se amplia a cada vez.

FESTIVAL DE CURTAS

Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel. 3512-6111

CineSesc. Rua Augusta, 2.075.

MIS. Avenida Europa, 158, tel. 2117-4777

Espaço Unibanco. Rua Augusta, 1.470, tel. 3288-6780.

CCSP. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3397-4054

Cine Olido. Avenida São João, 473, tel. 3331-8399.

Cinusp. Rua do Anfiteatro, 181, tel. 3091-3540.

Cineclube Grajaú. Rua Prof.

Oscar Barreto Filho, 252, tel. 6181-1205

Matilha Cultural. Rua Rego Freitas, 542, tel. 3256-2636

Museu do Futebol. Estádio do Pacaembu. Praça Charles Miller, s/ nº, tel. 3664-3848.

Programação completa:

http://www.kinoforum.org

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