TODOS OS CAPRICHOS DE LEO BALADA

O que é um capricho?, pergunta-se o crítico Robert Hughes no livro que dedicou a Goya, o pintor que retratou criticamente a nobreza e o clero da Espanha no fim do século 18 em 80 gravuras, autênticas e corrosivas obras-primas. "Ele foi o primeiro artista a usar a palavra para denotar imagens que tinham algum propósito crítico: uma veia, uma essência de crítica social", escreveu Hughes. Precavido, Goya anotou ao lado das gravuras: "O autor sonhando. Seu único propósito é desenraizar ideias danosas e perpetuar, com Los Caprichos, o testemunho vigorosamente fundamentado da verdade".

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2012 | 03h09

A qualidade artística e a agudeza das denúncias goyescas de 1797 propiciaram historicamente o nascimento de vários filhotes nas demais artes. Na música erudita, o subproduto mais recente é do catalão Leonardo Balada, de 78 anos. "Meus caprichos são uma série de obras em forma de suítes, em movimentos curtos com solista e orquestra de câmara." Ele usa a forma - que nomeia sempre no plural, como Villa-Lobos fez com as Bachianas Brasileiras - para dialogar com Martin Luther King, o catalão Pablo Casals (violoncelista que lutou contra o franquismo) e Pablo de Sarasate, violinista espanhol da segunda metade do século 19. Dialoga ainda com a Guernica de Picasso, obra símbolo das artes plásticas politicamente empenhadas.

Musicalmente, Balada é eclético. Acomoda a música tonal com inflexões folclóricas ao lado de técnicas instrumentais expandidas. O recém-lançado CD Caprichos está disponível só em formato digital (pode ser baixado em www.classicsonline.com por US$ 6,99). O CD físico será lançado em breve.

Caprichos n.º 1, para Violão e Orquestra de Cordas é livremente baseado nas canções populares que o poeta Federico García Lorca, morto em 1936 pelas forças franquistas na Guerra Civil Espanhola, arranjou para piano e voz, usando melodias populares da Andaluzia. Em geral, Balada cita as canções nos primeiros compassos e daí em diante as expande usando técnicas contemporâneas. São sete as canções de Lorca usadas como matéria-prima: Los Cuatro Muleros, La Tarara, Los Peregrinitos, Sevillana, Lejano, Nana e Zapateado. Excelente a performance do violonista Bertrand Pietu e da Orquestra de Câmara Ibérica, regida por José Luis Temes.

Caprichos n.º 5, para Violoncelo e Orquestra de Cordas (2008) é um tributo a Isaac Albéniz. Os movimentos sempre incluem no título a palavra 'transparencies'. É como se a música sugerisse a visão de uma paisagem através de um vidro, portanto distorcida, a partir de quatro peças de Albéniz: Triana, Corpus en Sevilla e Evocación . A última, Transparencies Sobre Sevilla e El Albaicín, retrabalha simultaneamente duas composições, sugerindo o ritmo dançável da sevilhana e o curto ritmo percussivo de albaicín.

Praticamente um duelo em que solista e orquestra terçam lanças. Engenhoso, mas acima de tudo música de excelente qualidade, com ótimos intérpretes, como o violoncelista Aldo Mata e a Orquestra de Câmara Ibérica, regida por Jose Luis Temes. Pós-moderno à catalã, Balada "retrabalha surrealisticamente" temas da arquiconhecida Pequena Serenata Noturna de Mozart em A Little Night Music in Harlem (2006). O surrealismo fica por conta do acaso, politonalidade e técnicas expandidas. É uma Pequena Serenata Noturna tal como Mozart a escreveria hoje, no século 21.

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