Todos os caminhos levam a Gabi

Ela impressiona. Gestual amplo, voz farta, olhos inquisidores, Marília Gabriela ocupa o espaço, ainda que esteja ali, sentadinha na ponta da mesa, discreta em um look pretinho básico, pronta para a tarefa da vez: divulgar seu novo CD, Perdida de Amor, lançado pela Universal e que acaba de chegar às lojas.Sim, Marília canta e não é de hoje. Este também não é seu primeiro disco. Antes deste, ela gravou dois álbuns pela Som Livre, em 1982 e 1984, quando vivia o auge do sucesso no TV Mulher, programa com o qual conseguiu fama nacional como apresentadora. "Eu escolhi minha profissão pelo caráter aventureiro, de poder conhecer pessoas, lugares e ainda ser paga para isso. De repente, me via em cima de um sucesso absurdo que era o TV Mulher e pensei: nunca mais vou sair daqui!", lembra.Ela então ligou para o José-Itamar de Freitas, na época diretor do Fantástico, e pediu: "Me deixa cantar aí, tentar alguma coisa diferente." Itamar achou uma loucura, mas se Boni deixasse, ele topava. Boni ordenou: "Grava Marília. Se ficar bom, a gente põe no ar."Com ajuda de Nilton Travesso - que a dirigia no TV Mulher -, Marília escolheu uma música que ainda não havia sido gravada por nenhuma outra mulher para evitar comparações. Foi interpretando Gonzaguinha, no Fantástico, que o público viu pela primeira sua voz grave, forte, cheia de personalidade, ser usada para outro propósito que não o de dar notícias.Marília cantou e fechou com a gravadora Som Livre. O diretor artístico era Max Pierre, que hoje é o vice-presidente da Universal e não por acaso produtor-executivo do atual CD.No vinil, ela não se reconhece Entre um projeto e outro, Marília gravou um disco declamando poesias femininas, mas não chegou a sair do forno. "Na época, o João Araújo me contou que aqueles meus discos tinham vendido muito bem, informação que me sonegaram!", diverte-se. A Som Livre chegou a lançar um CD com compilações dos dois discos de Gabi. "Eu ainda sou do tempo do vinil, sou quase uma antiguidade", brinca.Sobre os discos, ela confessa que tinha um certo desconforto ao ouvi-los. "Os dois discos são lindos, mas eu não me reconheço muito neles." No primeiro, ela gravou músicas inéditas, e a conselho do produtor Durval Ferreira cantou em um tom mais alto. "Não tem eu lá", diz. O segundo já ficou um pouco mais próximo de Gabi, mas ela diz que era tão autocrítica que o desconforto permanece. Agora não. "Tive medo de ter a mesma reação, mas ouço e gosto. Ele é parecido comigo, estou inteira no CD, são músicas que me movem, me comovem, eu estou cantando no meu tom de voz, no meu elemento."Marília resolveu voltar ao disco depois de receber o convite de um senhor, dono de uma gravadora. "Lembrei-me de como era bom gravar." Convidou Simone para produzir e foi dela a idéia de Gabi gravar Dick Farney. Informalmente, o projeto foi apresentado para Max Pierre, que adorou. Cantar com Reynaldo Gianecchini, maridão e galã, com quem divide uma das faixas, também foi idéia da Simone."Eu disse não. Vão especular, cutucar, machucar. Toda vez que bate no casal tem sempre uma pequena sacanagem a ser feita", diz. Mas topou. Giane, que - segundo Marília, faz aula de canto "cedeéficamente" há tempos com a professora Tania Amorim. "Botei para ele ouvir, duas gravações do Dick, uma com a Norma Bengel, outra com Claudete Soares. Ele adorou a música - que não é do tempo dele. Foi a última música que eu gravei."Os dois também estarão juntos no palco em 2003. O espetáculo estréia em março em São Paulo e vai inaugurar um teatro onde era o Palladium. Trata-se de um texto de Edward Albee, The Play About the Baby, com direção de Aderbal Freire Filho. São quatro atores em cena, um casal jovem e um maduro. "O Giane faz parte do casal jovem e eu faço parte do casal maduro", conta Gabi. "Agora vou aprender a contracenar. Isso me anima", avisa.Ela também poderá ser vista no cinema. Fez uma participação especial no primeiro longa de Alice Andrade. "Sou mãe do Marcelo Farias, mulher do senador Ney Latorraca, foi delicioso fazer", lembra. Para compor a personagem, Gabi se submeteu a um implante de longas madeixas. "Ela é uma perua, mas é meio antiga, a imaginei com cabelo de pantera", conta. A experiência de colar uma cabeleira ela não recomenda. "Como tem gente que dorme com aqueles cabelos?", pergunta, espantada, após uma noite de insônia por causa dos fios falsos.Tantos caminhos paralelos ao que ela considera sua "adorável atividade ganha-pão" (o jornalismo), se explicam em uma pergunta: Porque não? "Uma obrigação que todo mundo devia ter na vida era explorar suas possibilidades. Eu não quero jamais carregar uma frustração. Essas atividades não me deram muito pão, mas deram muito prazer." Virar cantora de verdade? "De jeito nenhum", é a resposta. "Sou uma jornalista, a inquietação, o espírito analítico, crítico do jornalista. Eu penso perguntando, penso procurando respostas. Agora.... gravar disco é um tesão. Cantar no escuro, para pouca gente, é um tesão. Sair de cantora pelo País. Eu sou pocket show, caibo no bolso."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.