Todos os caminhos da arte

Mostra no Rio põe em debate os processos tecnológicos usados na criação

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2012 | 03h09

Para que raios serve um motor de antena de rádio de carro a não ser para fazer mover antena de rádio de carro? A artista plástica Mariana Manhães enxerga no pequeno equipamento um mundo de possibilidades.

Atrelados a tubos de espuma, alto-falantes, duas telas de LCD e bases de antenas, motores como este, em geral vistos como sucata, compõem Dentre (Lâmpadas), trabalho de 2010 exposto então na mostra Paralela, em São Paulo, e trazido este mês ao Oi Futuro do Flamengo.

Na parede contígua à obra, o curador Alfons Hug alocou Bürostuhl (cadeira de escritório), performance gravada em vídeo, do suíço Roman Signer, que consiste no rodopio de uma cadeira impulsionada por foguetes nos braços.

Mais à frente, chega-se à Base para Unhas Fracas do carioca Alexandre Vogler: duas mãos mecânicas comandadas por um motorzinho daqueles que fazem rodar os frangos nas máquinas de assar das padarias.

A exposição se chama High Tech/Low Tech - Formas de Produção, e discute, nos interstícios de vídeos, esculturas, fotografias e performances, as relações entre homem e máquina, arte e tecnologia.

Diretor do Instituto Goethe no Rio, o curador, alemão há dez anos no Brasil, conclui que "quanto mais a sociedade avança tecnologicamente, mais o artista volta para trás, aposta na baixa tecnologia".

"A beleza desse tipo de obra (como a dos dois brasileiros) está no precário, no barato, na máquina que não tem funcionalidade. A máquina que funciona quase não pode ser arte contemporânea", afirma também Hug.

Mostrados em bienais tão distantes/distintas quanto a de Veneza e a de Xangai, e pescados durante um ano em estúdios europeus e asiáticos, os trabalhos têm imagens espetacularmente impactantes, como os helicópteros suicidas do vietnamita Dinh-Q; Lê, a siderúrgica totalmente automatizada, filmada em seus vermelhos e amarelos vibrantes pelo turco Ali Kazma e a "fantástica fábrica" de gelo em pleno Círculo Polar Ártico, visitada pelo norte-americano Chris Larson.

Outras comovem pela singeleza, como o carro dos Flintstones do canadense Michel de Broin, propulsado pelo pedalar conjunto dos passageiros, as marionetes da colombiana Libia Posada, os rituais disciplinadores chineses de 1, 2, 3, 4, de Zhou Tao e as imagens do casal de artistas Katia Maciel e André Parente, que se repetem projetadas na parede, como aquelas velhas bonequinhas recortadas no papel.

Há o elogio ao valor do trabalho, há a crítica quanto à obsolescência humana e tecnológica, a pujança e o abandono, a oposição entre a produção artesanal e mecanizada - questões que movem artistas tanto no mundo ainda em desenvolvimento humano e econômico (Brasil, Hong Kong, Índia), quanto nos países mais ricos (Canadá, Alemanha, França, etc.).

"Lido com o que tenho na loja de ferragem perto da minha casa. A mim interessa encontrar soluções, essa é a minha linguagem", conta Mariana, que é ajudada pelo pai, engenheiro.

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