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Todo o Shakespeare em uma década

Às vésperas dos 450 anos do bardo, ‘Ricardo III’ dá início a projeto que quer montar as 39 peças que ele deixou

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2013 | 19h17

Apresentar na íntegra as peças de William Shakespeare (1564-1616). Todos os 39 títulos que ele deixou. A proposta, que os britânicos costumam levar a cabo anualmente, será pela primeira vez realizada no Brasil. Às vésperas dos 450 anos de nascimento do escritor – comemorados em 2014 – o ambicioso Projeto 39 começa a ganhar corpo hoje com a estreia de Ricardo III.

Sob a direção de Marcelo Lazzaratto, o drama histórico será o primeiro dos textos do bardo a vir a público. Na sequência, já estão acertadas as produções de Romeu e Julieta, As Alegres Comadres de Windsor, Timão de Atenas e Tróilo e Cressida.

“Minha vontade era fazer algo mais consistente do que um espetáculo avulso. Não sou o primeiro no País a ter essa ideia, mas espero ser o primeiro a conseguir levá-la adiante”, diz Alexandre Brazil, produtor e idealizador do projeto, que também conta com consultoria da crítica Barbara Heliodora.

A proposta, explica Brazil, é conseguir encenar ao menos três obras por ano. E alcançar a marca das 39 peças em uma década. Além das estreias em São Paulo, os espetáculos devem percorrer outros estados do País. E já têm acertadas apresentações na réplica do Shakespeare Globe Theatre, que está em construção em Minas Gerais.

Sem seguir a ordem cronológica em que foram escritos ou qualquer outro ditame, a escolha dos textos a serem encenados coube exclusivamente aos diretores convidados. A única exceção, explica o produtor, deve acontecer em 2015. Para o ano que marca o aniversário de 400 anos de morte do escritor, já está prevista uma versão de Hamlet– seu texto mais festejado e conhecido.

Ao trazer Ricardo III como obra de abertura, o projeto aposta em uma das mais sangrentas criações shakespearianas: Inspirada na história verídica do rei Ricardo III da Inglaterra e nos conflitos sucessórios vividos ao final da Guerra das Rosas, entre 1455 e 1485. “É uma peça que consegue ser popular sem ser palatável”, crê Marcelo Lazzaratto. Talvez porque, aliadas à sua trama intricada e repleta de conflitos políticos, surja a figura de um protagonista forte e cativante. “Um personagem sedutor, apaixonante”, considera ele.

Ambientada na Europa, durante a Idade Média, Ricardo III permanece a retratar com acuidade os interstícios do poder. “Não precisei buscar analogias com o presente ou fazer atualizações. Fica muito claro que aquilo que perturbava Shakespeare no século 15 ainda não foi superado”, comenta o diretor, que já assinou outras montagens do dramaturgo, entre elas A Tempestade (2011) e Do Jeito que Você Gosta (2010). Mesmo sem recorrer a adaptações temporais, a atual versão chega com diferenças. A duração é mais curta: duas horas e vinte minutos no lugar das quatro horas originais. O elenco também está mais enxuto – 14 intérpretes e não mais de 50 como o autor previu. “Diversos personagens cumpriam apenas a função de trazer informações à cena e puderam ser condensados em apenas uma única figura”, pontua o encenador. Também no cenário percebe-se uma tentativa de deslocamento. Todas as cenas se passam em uma arena circular, que rompe o espaço do palco e avança alguns centímetros sobre a plateia.

A despeito das mudanças empreendidas, Lazzaratto fez questão de manter duas cenas que são geralmente limadas das produções contemporâneas. Uma delas é uma passagem em que aparece um escrivão. Outra é uma aparição dos cidadãos do reino. Sentindo que algo de errado está em curso no palácio, o povo resolve tomar as ruas. “Em Shakespeare, muitas vezes o que parece descartável, não é”, lembra o encenador. “A tentativa foi a de ser o mais simples, o mais claro possível, mas sem abrir mão da sua poética.”

Em Ricardo III, o dramaturgo vinha narrar a trajetória de um nobre de ambição desmedida. Sua mecânica era matar todos aqueles que se colocaram em seu caminho como empecilho ao trono. Os irmãos, os sobrinhos, os amigos. Nesse desenrolar de assassinatos, não emergem conflitos psicológicos que possam ser convocados para “justificar” a crueldade do tirano. Não existe ambiguidade. A perversão do protagonista é inequívoca e, em certa medida, emblemática. “O que nos permite um posicionamento muito claro”, considera Lazzaratto.

Interessante, contudo, é pensar que, em sua voracidade, Ricardo não se distanciava de seus sucessores ou predecessores. “Consegue ser mais cínico”, lembra René Girard, no estudo Shakespeare: Teatro da Vingança. “Mas não essencialmente diferente.”

 

PRÓXIMAS PEÇAS

‘Romeu e Julieta’

A famosa tragédia adolescente deverá ser encenada com direção de Vladimir Capella

‘As Alegres Comadres de Windsor’

O diretor Cacá Rosset irá assinar a nova versão da comédia shakespeariana

‘Tróilo e Cressida’

A intenção é que André Garolli assuma a encenação deste título menos conhecido da obra do bardo

‘Timão de Atenas’

O reconhecido diretor Aderbal Freire-Filho escolheu esse texto para marcar sua participação no projeto

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