TODO O PODER ÀS MULHERES

Grupo de turcas faze greve de sexo na nova comédia de Radu Mihaileanu

LUIZ CARLOS MERTEN , O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2012 | 03h09

Leon Cakoff adorava Radu Mihaileanu e, além de exibir os filmes do diretor - um judeu romeno - na Mostra, trouxe-o a São Paulo para ser jurado em 2002. Na época, Mihaileanu já havia feito seu filme mais famoso, O Trem da Vida, premiado em Veneza - e que pode ter sido a inspiração para A Vida É Bela, de Roberto Benigni. O 'pode' fica em suspenso porque o ator e diretor italiano nega a influência, ou mesmo referência, mesmo tendo sido acusado de plágio pelo colega romeno. Mais recentemente, Mihaileanu fez O Concerto, que foi um grande sucesso no circuito de arte de todo o mundo. Seu novo filme estreou ontem. A Fonte das Mulheres é uma fábula sobre o poder feminino.

Justamente, a fábula. Em Cannes, no ano passado, após a apresentação da Fonte, Mihaileanu deu uma entrevista dizendo que não se interessa pelo realismo no cinema. Ele filma para transcender o real - é o que se propõe a fazer no filme que acaba de estrear. A origem foi uma notícia que o diretor leu num jornal há mais de dez anos. Mulheres turcas fizeram greve de sexo numa pequena aldeia para forçar os maridos a resolver o problema de abastecimento de água no local. Ele achou a história divertida, mas não pensou nela, imediatamente, como possibilidade para um roteiro (e um filme).

Isso veio depois, quando Mihaileanu começou a pensar na ascensão política das mulheres (e nas mulheres governantes no mundo). O filme começou a se delinear e, nessa fase, ele foi buscar inspiração em Lisístrata, do grego Aristófanes. Só como curiosidade, a obra já havia dado origem a um filme (Greve do Sexo, de Jean Negulesco, de 1962, com Angie Dickinson) e a uma canção (Mulheres de Atenas, de Chico Buarque).

Mihaileanu filmou no Marrocos, tendo tido o cuidado de reunir seu elenco - as mulheres - para uma convivência que achava que seria benéfica para seu relato. Ficaram assim mais ou menos um mês. Coabitando, trocando ideias, revisando os diálogos. O diretor diz que a experiência foi bem positiva. Fortaleceu a cumplicidade entre as atrizes e as mulheres que retratam. São grupos familiares e de amigas, que a convivência ajudou a estabelecer e sedimentar. Por mais que Mihaileanu diga que o realismo não o atrai, existem momentos em que a naturalidade do elenco sugere uma câmera clandestina, como se a ficção, a fábula, se construísse nas bordas do documentário.

As mulheres fazem greve de sexo - todo poder às mulheres. Entre elas estão Hiam Abbass, a atriz palestina que filmou até com Steven Spielberg (Munique) e Hafsia Harzi, que também integra o elenco do belo e sombrio L'Apollonide, Os Amores da Casa de Tolerância, de Bertrand Bonello, que estreou ontem na cidade (e também estava em Cannes, 2011). L'Apollonide é o contrário de A Fonte das Mulheres, que é luminoso e engraçado (sem deixar de ser sério e até dramático).

Quando diz que não lhe interessa reproduzir o real, Radu Mihaileanu gosta de acrescentar que, ao fazê-lo, está sendo fiel às suas raízes judaicas. Os judeus sobreviveram aos programas na Europa Central e Oriental cultivando um tipo peculiar de humor, que filtra o mundo em volta (a realidade) pelo absurdo. Um bom exemplo é Metamorfose, o relato de Franz Kafka sobre um homem que acorda transformado em barata. Não tem muito a ver com A Fonte, mas existem cenas em que a fábula de Mihaileanu roça o absurdo.

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