Todo o lirismo de Guignard, agora em São Paulo

Finalmente chega a São Paulo uma grande retrospectiva de um dos maiores mestres da pintura brasileira, Alberto da Veiga Guignard (1896-1962). Sua última grande exposição foi organizada por Mário Barata um ano antes de sua morte, em Belo Horizonte. A mostra que será inaugurada amanhã à noite no Masp - e que foi exibida inicialmente no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro - segue depois para Minas Gerais, terra que o fluminense Guignard adotou, chegando a reinventar suas montanhosas paisagens."Nunca, para meu gosto, poesia e pintura se fundiram tanto na arte brasileira como nas telas de Guignard, em que a visão lírica do artista não é um elemento voluntário e adicional mas a determinante de sua concepção", definiu de forma precisa o poeta Carlos Drummont de Andrade.A mostra O Humanismo Lírico de Guignard é um resumo encantador do trabalho desse pintor singular. Entre os 134 desenhos e pinturas reunidos pelo curador Jean Boguici, estão representados todos os gêneros que Guignard, em seu ecletismo, enfrentou. Boguici, que além de marchand foi grande amigo de Guignard - que conheceu em 1949, recém-chegado ao Brasil -, procurou reunir os melhores exemplos dos retratos, paisagens e naturezas-mortas em várias coleções públicas e privadas do País e do exterior. Apesar de ter conseguido várias obras-primas, o curador lamenta ausências importantes, como a Paisagem de São João, que pertence ao MoMA de Nova York, ou A Família do Fuzileiro Naval, que está no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, mas não pôde ser transportado. Há anos ele tenta localizar obras perdidas e calcula que pelo menos metade da produção de Guignard esteja desaparecida. Uma das obras que ele procura com especial atenção é um quadro de um menino fazendo primeira comunhão que viu no cavalete do pintor.A mostra começa com uma série de retratos e auto-retratos, gênero que Guignard dizia considerar o mais difícil. Entre eles se destaca Retrato de Felicitas Baer Barreto, feito em 1930 e que é uma espécie de síntese das grandes questões que permeariam toda sua obra. Atrás da modelo se desenham as paisagens montanhosas que tanto encantaram o pintor e em sua cintura há um singelo buquê de flores, outro de seus temas preferidos.Aliás, desde que um de seus arranjos de flores foi vendido por mais de US$ 800 mil num leilão em Nova York, os preços de um Guignard dispararam e começaram a surgir falsificações no mercado. "Mas aqui eu garanto que não há nenhum falso", brincou Boguici durante a apresentação da mostra à imprensa, na sexta-feira.O lirismo às vezes ingênuo de Guignard fez com que fosse erroneamente apontado como uma espécie de pintor naïf. É interessante notar ao longo da exposição como Guignard era um artista extremamente atento ao que ocorria à sua volta, dialogando com mestres que viu e admirou na Europa, do florentino Boticelli (segundo ele "o melhor de todos") aos modernistas De Chirico, Cézanne e até Van Gogh. Apesar de ter uma formação européia, ele também manteve vínculos estreitos com a produção nacional e afirmava ser o melhor depois de Portinari. Há também uma série de auto-retratos, de várias fases, que funcionam como uma espécie de sinal para a importância da trágica história de vida do artista para a compreensão de sua obra. Guignard nasceu em 1896 com lábio leporino, com abertura total entre a boca, o nariz e o palato; teve de se submeter a diversas cirurgias, mas continuou regurgitando alimentos e falando com dificuldade por toda a vida (o defeito aparece em seus auto-retratos). Seu pai suicidou-se, e seu padrasto - a quem descrevia como "ríspido e autoritário" - dilapidou a fortuna da família.No campo amoroso, sua situação não foi melhor. Foi abandonado pela noiva em plena lua-de-mel. A mãe e a irmã morreram antes de ele retornar ao País (Guignard vive na Europa de 1915 a 1929). Sozinho e sem grandes fortunas, ele conseguiu o apoio de vários amigos, entre eles Juscelino Kubistchek, que o convidou a mudar-se para Belo Horizonte (que administrava) em 1943. Alcóolatra, sem fortuna e solitário, Guignard passou a dedicar-se à arte e ao ensino. Em vez de amargura, ele responde com lirismo e poesia. "Mesmo nos momentos mais dolorosos de sua vida, introduz em seus desenhos e pinturas notas de puro humor e deliciosa fantasia", escreve o crítico Frederico Morais no catálogo da mostra, em que estão reproduzidas quase todas as obras da exposição (convém lembrar que a versão paulistana da publicação ainda não está pronta)."Vivendo em estado de encantamento, ele mesmo meio criança, meio anjo, Guignard interessava-se por todas as pessoas fugindo às hierarquias e à rígida estrutura social", acrescenta Morais. Jean Boguici evita comentar qual é, na sua opinião, a fase áurea de sua obra. Se as pinturas mais decorativas, como os painéis cheios de referências à natureza exuberante brasileira, estão entre os trabalhos menos atraentes da mostra, há na seleção um grande número de obras que justificam mais de uma visita ao museu da Avenida Paulista. Entre elas estão suas belas paisagens imaginárias, das quais se destaca uma de 1950. Em vez dos intensos tons de azul e verde que dominam sua pintura, Guignard pinta uma paisagem cinza, de tal intensidade que as montanhas se confundem com a bruma de um dia chuvoso. Outro ponto alto é a reunião das 14 telas da Via-Sacra pintada por Guignard em 1960 para a Capela São Daniel, projetada por Oscar Niemeyer. A intensidade expressiva desses trabalhos desagradou ao clero. "Eles disseram que pareciam formigas", conta Boguici. As telas foram devolvidas aos seus proprietários e só agora foram reunidas novamente.O Humanismo Lírico de Guignard. De 3.ª a dom., das 11 às 18h. R$ 10,00 (R$ 5,00 estudantes; grátis até 10 anos e maiores de 60). Para agendar grupos e escolas, 283-2585). Masp. Avenida Paulista, 1.578. 251-5644). Até 13/8.

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