Todo o amor do ''Carteiro de Deus''

O escritor Marcel Souto Maior fala de As Mães de Chico Xavier, que encerra comemoração do centenário do médium

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2011 | 00h00

Como biógrafo de Chico Xavier, Marcel Souto Maior virou especialista nas relações entre vivos e mortos e na figura do médium de Uberaba, que se autodefinia como "carteiro do além". O "especialista" confessa - "Numa pré-estreia do filme em São Paulo, defini o espiritismo como um tripé formado por religião, ciência e filosofia e fui corrigido por dois estudiosos. É religião no Brasil, em todo o mundo é ciência e filosofia." Souto Maior é autor do livro Por Trás do Véu de Isis, em que se baseia As Mães de Chico Xavier. O filme de Glauber Filho e Halder Gomes estreou ontem com 403 cópias em salas de todo o Brasil.

Só para comparar - Chico Xavier estreou com 350 cópias e Nosso Lar com 400. O primeiro fechou em 3,5 milhões de espectadores e o segundo, em 4 milhões. Quanto fará o Mães? "Prefiro não arriscar para não me decepcionar", diz Souto Maior. Mas ele acredita no sucesso. Por lidar com a dor da perda das mães - e com a esperança de reencontro com os filhos, proporcionada pelas cartas psicografadas pelo médium -, o filme é, abertamente, o mais emocionante dos três. As Mães chega para encerrar as comemorações do centenário de nascimento de Chico Xavier.

Cinéfilo de carteirinha, admirador de Quentin Tarantino e Stanley Kubrick, como Marcel Souto Maior se relaciona com a trilogia? "O tipo de cinema que prefiro é outro e estou muito envolvido com esses filmes, mesmo com Nosso Lar, que não se baseia em original meu, mas é o maior sucesso editorial do Chico. Independentemente de gostar, não posso deixar de ressaltar certas qualidades e a maior delas é a interpretação de Nelson Xavier. O Chico dele é verdadeiro."

Souto Maior é jornalista. Há 15 anos, no Jornal do Brasil, fez uma matéria tentando saber por que a peça Além da Vida, baseada na doutrina de Chico Xavier, havia feito 2 milhões de espectadores. Isso o levou a Uberaba e ao médium. Marcel surpreendeu-se porque Chico escreveu cerca de 400 livros que venderam mais de 20 milhões de exemplares. Os direitos não lhe pertenciam. Ele não se sentia o autor desses livros, portanto, não tinha por que se beneficiar dos direitos, que revertia para instituições. Chico viveu e morreu modestamente. Marcel descobriu que ele tinha a alma de um missionário.

Seu trabalho de psicógrafo salvou famílias da destruição a que o sofrimento proporcionado pela perda de entes queridos as condenava. O próprio Souto Maior se reconciliou com o personagem. "Quando criança, passava férias em Araxá e Chico foi o fantasma da minha infância. Tinha medo dele, o homem que falava com os mortos." O Chico que conheceu e cuja confiança ganhou - o médium desconfiava de jornalistas - era um homem doce. Para quem lida de forma tão íntima com o assunto, uma confissão do escritor pode causar surpresa. Ele confessa que não é espírita - como? -, mas volta e meia sua falta de fé sofre um abalo.

Na pré-estreia paulistana do filme, espontaneamente, um pai e uma mãe pediram a palavra no fim da sessão e falaram de forma sincera sobre o consolo que as cartas - e o filme - lhes haviam proporcionaram. São coisas que calam fundo em Souto Maior. Estabelecem, para ele, a grandeza de Chico Xavier. As Mães foi um filme que o emocionou bastante. Ele se diverte quando o repórter confessa que a primeira parte é sóbria e a segunda, apelativa, mas que, até por isso, foi difícil refrear as lágrimas. "Que bacana, ter coragem de dizer isso." Pode ser arriscado tentar prever o público de As Mães de Chico Xavier, mas, com certeza, o filme vai provocar um rio de lágrimas nos cinemas do País.

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