Yann Arthus-Bertrand/Divulgação
Yann Arthus-Bertrand/Divulgação

Todo mundo numa única exposição

Masp mostra, a partir de amanhã, trabalhos do fotógrafo Yann Arthus-Bertrand, vistos por 3,5 milhões de pessoas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

18 Abril 2011 | 00h00

O fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, de 65 anos, nasceu numa conhecida família de joalheiros parisienses, mas nunca se interessou por diamantes e esmeraldas. Seu tesouro está acima da terra. Bem acima, aliás. Conhecido por suas fotos aéreas, entre elas a de um manguezal em forma de coração na Nova Caledônia, arquipélago da Oceania, Arthus-Bertrand já esteve algumas vezes no Brasil e volta para inaugurar amanhã, no Masp, a exposição 6 Bilhões de Outros, seu mais ambicioso projeto até o momento. Recorde de público na França na temporada passada, a mostra é inédita no Brasil e só foi exibida na Europa e Ásia, onde foi vista por 3,5 milhões de pessoas.

O Projeto 6 Bilhões de Outros é uma sequência natural de outra realização de Yann Arthus-Betrand, um banco de dados com imagens do planeta visto do céu. A série, A Terra Vista do Alto, virou livro . Com fotos tiradas de um helicóptero, ele foi publicado em 1999, atingindo a marca de 3 milhões de exemplares vendidos. O fotógrafo organizou, então, uma exposição com as melhores imagens, que passou por 100 cidades, atraindo a atenção de 100 milhões de visitantes, o que o incentivou a desenvolver o gigantesco projeto das 6 bilhões de almas que habitam o planeta.

Lançado em 2003, o projeto reuniu até o momento 5 mil depoimentos captados em 75 diferentes países, alguns escolhidos para o DVD triplo que ele lançou na França e será exibido na mostra do Masp. São pessoas comuns, que respondem a questões simples sobre suas lembranças de criança, seus sonhos e projetos futuros. Arthus-Bertrand acredita tanto no poder mobilizador desses depoimentos que até fundou, em 2005, uma organização filantrópica dedicada à promoção do desenvolvimento sustentável. De Paris, por telefone, ele falou sobre a exposição, aberta no Masp até 10 de julho.

Gorilas. Ambientalista, o fotógrafo começou sua carreira no Quênia, no fim dos anos 1970, ao lado da mulher Anne. Ambos passavam horas observando leões e fotografando a vida dos felinos, retratados em seu primeiro livro, lançado há 30 anos. "Foi um pouco decepcionante, pois não conseguia me aproximar deles", lembra Arthus-Bertrand, contando que teve melhor sorte ao fotografar gorilas com a zoóloga americana Dian Fossey (1932-1985). Assassinada em sua cabana nas montanhas Virunga, em Ruanda, onde protegia os primatas da extinção, Dian virou lenda e teve sua vida contada no filme Nas Montanhas dos Gorilas (Gorillas in the Mist, 1988). "Sua morte me causou profunda comoção, ainda mais porque vi uma mulher sozinha, perseguida por caçadores e doente."

Dian Fossey, diz o fotógrafo, foi uma grande inspiração. O cinema também teve um papel importante em seus anos de formação. Adolescente, chegou a trabalhar como ator em um filme ao lado de Michèle Morgan (Dis-moi qui tuer, 1965) . Aos 20 anos, sua vida tomou outro rumo. Cuidando de uma reserva natural na França, descobriu que queria trabalhar com o meio ambiente.

Seu compromisso não é só com a qualidade das fotos. Ele é da mesma natureza da militância ecológica da zoóloga americana. "Primeiro me interessei pela vida animal, a natureza; depois, pela humanidade." A técnica, diz ele, é secundária. Afinal, com câmeras digitais, a perfeição formal está ao alcance de todos. A moral é outra história. "Você precisa de talento para ver o que está à frente, essa obra de arte que é nosso planeta, beleza que poucos conseguem enxergar."

Religião. Seu ambientalismo não tem a ver com religião. "Não sou uma pessoa religiosa, embora muitas pessoas digam que essas fotos aéreas parecem provas da existência de Deus." Para ele, o divino está representado, sim, na presença dos milhares de visitantes que dedicaram seu tempo no Grand Palais, em Paris, para ver seus semelhantes abrirem os corações nos vídeos.

Tudo começou, segundo ele, quando seu helicóptero quebrou no Mali. Enquanto esperava pelo piloto, começou a conversar com um morador de um vilarejo. Este contou ao fotógrafo como era difícil alimentar seus filhos, revelando o medo que tinha do futuro. Não lhe pediu nada. Apenas olhou Arthus-Bertrand nos olhos. Esse foi o modelo do documentário 6 Bilhões de Outros, que teve a participação dos colaboradores Sybille d"Orgeval e Baptiste Rouget-Luchaire e seis diretores assistentes.

Perguntas como "o que você aprendeu de seus pais e o que deseja transmitir a seus filhos?" são respondidas com franqueza. Os entrevistados encaram a câmera como atores de Bergman, contando histórias comoventes. São pessoas tão diferentes entre si como um pescador brasileiro e um colono afegão. Não se trata de um ensaio barthesiano sobre "como viver junto". "A abordagem não é intelectual, mas amorosa", diz o fotógrafo. "Fiquei comovido com os depoimentos de pessoas que nunca tinham visto uma equipe de cinema na vida, com a sinceridade com que responderam de forma tão simples a temas tão abstratos como felicidade."

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