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João Wady Cury
Palco, plateia e coxia
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Todo dia é um dia infinito

É dia da Companhia de Teatro Heliópolis, que chega neste 2020 aos 20 anos de atividade

João Wady Cury, O Estado de S. Paulo

02 de janeiro de 2020 | 03h00

Enquanto roía as unhas de ansiedade, o dramaturgo irlandês Samuel Beckett, já um parisiense de carteirinha, abria as caixas de sua mudança para o novo apartamento do Boulevard St Jacques. Mas se seus dedos das mãos e suas unhas estavam ali era sua cabeça que voava. O novo romance, Como É, estava em gráfica e o escritor aguardava ansiosamente sair a primeira prova do novo livro. Aquele era um 2 de janeiro, como este, e Samuca, naquele longínquo 1961, já era o bom e velho Samuca que todos conhecemos, autor de peças como Esperando Godot e os romances Malone Morre e O Inominável

Todo dia é um dia infinito. Há neste dia milhares deste mesmo dia embutidos nele. E como infinito cabem feitos e misérias, nascimentos e mortes, ainda que tudo isso possa ser somente ficção na cabeça do vivente. 

Hoje é dia da Companhia de Teatro Heliópolis, que chega neste 2020 aos 20 anos de atividade e mostra maturidade com sua última montagem, (in) justiça, misto de cerimônia, celebração da vida e da morte e denúncia, um moedor de carne humana em forma de espetáculo teatral. 

Também em um dia como hoje, no distante 1949, o ator e diretor Abdias Nascimento encerrava a temporada da peça Aruanda, de Joaquim Ribeiro, e deixava mais forte o seu Teatro Experimental do Negro, grupo que comandou por quase 20 anos e teve Ruth de Souza entre suas principais atrizes. Abdias também foi Otelo, na peça homônima de Will Shakespeare, e sua Desdêmona foi a atriz Cacilda Becker. O talento do ator extrapolou o palco e seu trabalho teve influência inclusive na política, ao inspirar a Lei Afonso Arinos que, em 1951, proibiu a discriminação racial no Brasil. 

Este dia também pertence à atriz norte-americana Silvana Gallardo, que cantou pra subir em um 2 de janeiro há oito anos. Criadora do Método Gallardo de interpretação para atrizes e atores, pouco conhecido por aqui, usou sua técnica com Angelina Jolie e Keanu Reeves – o que pode explicar muita coisa. Seu método era baseado na máxima de que na arte da interpretação não há limites para o artista e as possibilidades são infinitas. 

É assim que olhamos para este 2020: felicidade no coração e olhos sonhadores. A felicidade vem do amor e o sonho na esperança de uma convivência em que haja respeito nas escolhas dos outros e tolerância nas diferenças.

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