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João Wady Cury
Palco, plateia e coxia
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Todo dia é um dia infinito

Foi em 28 de dezembro de 1943 que Nelson Rodrigues estreou, no Rio, a peça 'Vestido de Noiva'

João Wady Cury, O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2017 | 02h00

Poderia ser mais um ano que acaba e outro que começa. Mas a vida não é isso. Não são os anos, nem os meses, muito menos as semanas. E, se quiser saber a verdade, nem a passagem do tempo. É cada dia. Cada dia tem um infinito dentro de si. Há muito mais guardado em um dia do que a efervescência apática e vazia dos posts nas redes sociais, viventes tentando dar sentido e importância à sua vida ao traçar um diário de si mesmo para a posteridade, caso haja uma.

Um dia infinito é um dia besta. Pense em um dia besta como hoje, por exemplo. É o 362.º dia de 2017. Olhe para trás e perceba: estão chegando outros 28 de dezembro. Cada um diferente do outro a seu modo, cada um é único por suas qualidades. 

Foi em um dia besta como este, em 1943, que Nelson Rodrigues, roendo as unhas de ansiedade, abriu as cortinas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e revelou sua pérola para mais de 2 mil espectadores: Vestido de Noiva. A plateia quedou paralisada e até hoje tentamos entender como a peça permanece com sua potência sem igual. Mal sabia o moço que 350 anos antes, neste mesmo dia, em 1594, seu colega de ofício Will Shakespeare também roía as unhas – as deste manchadas de tinta da pena – atrás das cortinas do teatro Gray’s Inn. Era a estreia de A Comédia dos Erros, parte das festividades do Natal daquele ano. O mesmo dia, dois gênios, duas obras-primas.

Ah, humano, ilusão sua imaginar que essas unhas roídas foram exclusividade de Nelson e do bom e velho Will. O dramaturgo francês Edmond Rostand conseguiu levar ao palco também em um dia como este, em 1897, o narigudo mais famoso do teatro: Cyrano de Bergerac, com sua espada e língua afiadas e seu coração palpitante por Roxane, sua musa. Nem as unhas de Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo foram poupadas. Sua peça Marta Saré estreou em 1968, um 28 de dezembro, no Teatro São Pedro, saga musical de uma prostituta nordestina que enriquece no Rio de Janeiro e fica famosa. Só estrelinhas prateadas no céu de São Paulo: direção de Fernando Torres, cenário e figurinos de Flávio Império e no elenco o próprio Guarnieri, Fernanda Montenegro, Beatriz Segall, Antônio Fagundes e Paulo Cesar Pereio.

O irlandês Samuel Beckett, também num 28 de dezembro como este, em 1944, bota o ponto final em sua primeira versão do romance Watt. Samuca, pai de Esperando Godot e Dias Felizes, é reincidente nesta data. Em um 28 de dezembro de 1974, Samuca chega a Berlim e começa a ensaiar como diretor a sua peça mais famosa em que Vladimir e Estragon dizem esperar um tal de Godot.

Hoje também é o dia da dama do teatro britânico Maggie Smith com seu incrível número de atuações em mais de 70 peças – antes e durante o período em que chafurdou como a bruxa Minerva, professora de transfiguração em Hogwarts na sequência de cinema Harry Potter. Divide a data de nascimento o ator Denzel Washington, que estreia a peça Iceman Cometh, de Eugene O’Neill, no Jacobs Theater, a partir de 22 de março de 2018.

Mas gênio mesmo é o comediante francês Jean-Baptiste Poquelin, o Molière, autor de Tartufo e Doente Imaginário. Mostrou que a vida deve ser mais leve em uma raquetada. Em um dia besta como hoje, 28 de dezembro de 1643, assistiu com seu elenco a um espetáculo incomum: a instalação de uma quadra de tênis para ser usada também como palco no seu novo teatro, o L’Illustre Thèâtre. Pagou com o dinheiro da herança recebido da mãe. O que Molière tinha na cabeça? Caraminholas, certamente, mas em forma de bolinhas de tênis – as bolinhas indo e vindo tinham o mesmo ritmo de seus diálogos deliciosos, frases para cá, frases para lá.

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