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Ignácio de Loyola Brandão
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Todo começo de ano enlouqueço

Ele é um diretor de arte bom e famoso, trabalhamos juntos algumas vezes, nunca nos bicamos muito (na verdade, ele nunca gostou de mim), mas devo dizer que é de Giovanni Bianco a primeira grande frase do ano: "Trancoso é uma mistura de Oscar Freire com a CVC". Perfeito. Poderia ter acrescentado Jurerê, o gueto das celebridades e ricos (ou pretensos ricos) de Santa Catarina.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2014 | 02h10

Ah, os netos chegam. Recebi de fraterna amiga a notícia de que o ano para ela chegou com a notícia de mais um neto. Respondi: "Dizem que a gente sente que está envelhecendo à medida que os netos crescem e novos netos chegam".

E a realidade nos atinge brutal com o casamento dos netos e a chegada dos bisnetos.

É o momento em que os arquitetos fazem degraus cada vez mais altos, o Instituto de Pesos de Medidas não vê que um quilo equivale a três, que um centímetro se torna 20, e os filhos das mães dos oculistas aumentam os graus das lentes que usamos, apenas para ganhar comissão da indústria de vidros que fabrica as lentes. Sim, todos são culpados.

Como não falar dos médicos que ganham comissões para nos receitar medicamentos contra hipertensão, alta de glicemia, urina solta, azia, depressão, ácido úrico, fragilidade dos ossos (ora, se até o ex-invencível Anderson Silva quebrou a tíbia e a fíbula), controle da gordura no fígado, apatia, abulia, impaciência, irritação, arrastar os pés no chão (malditos fabricantes de calçados que colocam chumbo nos saltos), ronco, soluços, tosses, vitaminas de A a Z ou W e ainda Y.

Há quem lucre com tudo. Acrescente a sacanagem dos fabricantes de aparelhos para fazer ginástica na terceira, quarta, quinta, sexta, sétima idade. E os nutricionistas que ganham comissões dos fabricantes de alimentos "ideais para a saúde", tais como carne sem gosto e sem um pingo de gordura, aquela boa que escorre pelos lábios e mancha nossas roupas. Daí que nos recomendam aventais ou babadores, já usados pela maiorias das cantinas. Você entra, mostra a identidade, olham sua idade e entregam o babador que vai aparar a gordura ou os molhos suculentos. Desconfio que há por trás disso uma indústria de babadores. Sem esquecer os nutricionistas que devem ganhar comissões para evitar que as pessoas comam linguiça (notem, escrevi sem trema), cupim - tão macio, delicioso -, matambre, joelho de porco, ovos fritos em banha de porco, coxinhas, croquetes, rissoles, frituras variadas, lulas à doré, camarão empanado. E o que dizer de uma boa massa à carbonara, com bacon?

Correr de skate e carro pancadão. Pensem também que Deus faz tudo errado. Porque deveríamos rejuvenescer à medida que netos e bisnetos chegam. Assim poderíamos brincar com eles em pé de igualdade. Correr, andar de skate, manejar iPhones, iPads, videogames, todo tipo de aparelho eletrônico-informático, ter saúde para as baladas (falar nisso, faz tempo que não ouço ou leio a palavra rave; existe ainda?), tomar energéticos, não precisar de Viagra, disputar rachas, aprender a reduzir palavras (vocabulário) para se comunicar pelo twitter (no futuro, nem um novo Champolion vai decifrar os conjuntos de consoantes disparatadas), pegar o carro e juntar-se à turma que abre o capô e manda ver o pancadão (xi, o Haddad proibiu!). Dizem que o pioneiro dos pancadões foi o Pamonha, pamonha, pamonha. Pamonha de Piracicaba.

Avôs, bisavós, tataravôs - conheço vários - já se aposentaram, não fazem nada na vida, poderiam ficar brincando com seus descendentes, enquanto seus pais trabalham e não têm tempo de ficar com eles. Quem lê sente o drama de avôs como Zuenir Ventura ou Luis Fernando Verissimo, que lutam para conseguir tempo para brincar com as netas. Eles narram isso, em belo estilo, a cada semana. Mas como a média de idade vem subindo, e quem tem 70 não é mais velho, quem tem 80 está começando a ficar, quem tem 90 quer alcançar o recorde do Niemeyer, todos precisam trabalhar, dizendo que é bom para a cabeça, para o corpo, para o cérebro, que quem trabalha e raciocina e lê e escreve e se preocupa jamais terá Alzheimer.

Uma faixa na rua para nossa idade. Ótimo, para não nos preocuparmos com a sobrevivência em tal idade, seria todos termos aquelas aposentadorias de Banco do Brasil. Vocês leram? Ganham 45 mil. Deve ter sido herança da era Pizzolato, o fugitivo. Se fosse tempo da ditadura, colocariam a cara dele nos cartazes de Procurado. Ou Wanted. Dead or Alive, como nos faroestes.

O ideal é que o prefeito Haddad com esse vereador Tato (que não tem tato algum) instituíssem nas ruas a faixa da idade. Assim, teremos as faixas sagradas dos ônibus, a faixa dos ciclistas, a faixa das motos, a não faixa dos táxis - acaso não são transporte público?), a faixa de prioridade por idade e uma faixinha fina, da largura de uma fita do Senhor do Bomfim para os carros particulares.

E viva o ano-novo, 2014. Dois mais 1 igual a três, mais 4, igual a 7. Conta de mentiroso. Quem acha que não tenho razão, levante a mão. Como ninguém levantou, ao menos não vi, viva!

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