Todas as mulheres de Leilah Assumpção

Livro reúne 11 peças da dramaturga, que privilegiou o olhar feminino

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2010 | 00h00

Dor transmutada. Em sua nova peça, Leilah inspira-se em um trauma para falar de beleza

 

 

Leve. Ficou muito leve", comemora Leilah Assumpção, jogando o livro de um lado para o outro. "Acho que vai dar até para ler na cama." Para desavisados, pode mesmo parecer estranho que a dramaturga consiga achar delgado um calhamaço de mais de 600 páginas.

Mas, se considerarmos o conteúdo da obra -11 peças, escritas ao longo de 40 anos de carreira, dá até para entender o espanto de Leilah. "Imaginava que o livro sairia tão imenso que seria mais uma obra de pesquisa, para estudantes de teatro. Mas, acho que vamos conseguir vender para o público também."

Com lançamento marcado para hoje, o volume reúne desde seu primeiro texto, Vejo um Vulto na Janela, Me Acudam Que Eu Sou Donzela, criado ainda sob o impacto do golpe militar, em 1964, até o trabalho mais recente, Ilustríssimo Filho da Mãe, de 2008.

A única peça a ficar de fora da seleção foi Seda Pura e Alfinetadas, concebida sob encomenda para Clodovil. "O texto até fez bastante sucesso na época", ela explica. "Mas a intenção era dar ao livro uma coerência, revelar a minha temática."

É difícil falar no teatro de Leilah sem ligá-lo à revolução feminista que se insinuava nos anos 60. A mulher que recusava o lugar de esposa, que assumia o próprio desejo, adquiria voz e revia sua relação com o sexo oposto.

Todas essas são nuances quase onipresentes em seus textos e, não por acaso, sua dramaturgia é saudada como retrato de uma geração. "Fala Baixo, Senão Eu Grito fez mais pelo feminismo do que qualquer passeata ou queima de sutiã", definiu Ilka Marinho Zanotto, no Dicionário do Teatro Brasileiro.

Foi com a história da solitária Mariazinha, uma mulher despertada do seu estado de anestesia por um ladrão, que a autora seria descoberta. Ainda hoje seu trabalho mais conhecido, o texto mereceu dezenas de montagens, aqui e no exterior, e também serviria para revelar o talento dramático de Marília Pêra.

À época, a atriz estava presa ao rótulo de intérprete de musicais e foi imenso o estupor causado pela sua desenvoltura ao construir a personagem de uma solteirona em conflito.

Na passarela. Antes de se lançar como escritora, Leilah chegou a arriscar-se como atriz. Estudou com Eugênio Kusnet, vivia nas coxias do teatro Oficina, fez parte do elenco da mítica Vereda da Salvação, de Antunes Filho. "Mas não tinha talento nenhum. Era péssima." Com mais desenvoltura, experimentou também as passarelas, desfilando como manequim de alta-costura. E a experiência deve ajudá-la a compor sua próxima peça.

"Estou escrevendo sobre a beleza", conta. "Eu, que já fui linda, me descobri amada no meu mais feio." Leilah refere-se a uma infecção que lhe desfigurou o rosto e a levou a ficar mais de um ano sem sair de casa. "Não faço obras biográficas, mas parto sempre de uma emoção. Minha tarefa agora é transformar essa dor ."  

 

QUEM É?    

 

LEILAH ASSUMPÇÃO, dramaturga

Nascida em 1943 em Botucatu, é filha de educadores e foi registrada como Maria de Lourdes Torres de Assumpção. Iniciou a carreira como dramaturga com a encenação da peça Fala Baixo, Senão Eu Grito, em 1969. Também escreveu para televisão e teve seus textos montados em diversos países.

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