Todas as letras de Bethânia

Ao estrear show no Rio, a cantora aponta: poesia é sim para qualquer um

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2010 | 00h00

Junto com o arroz e o feijão, poesia. É como Maria Bethânia imagina que deveria ser a cesta básica do brasileiro. "Não dá para viver no seco, sem nada. Acho que deveria ir não só poesia, mas coisas que abrangem o poético. Sem isso, fica muito frio." A resposta à pergunta do Estado sobre a utilidade da poesia veio ao fim do ensaio geral/estreia para convidados do espetáculo Bethânia e as Palavras, que a baiana apresenta no teatro do Shopping Fashion Mall, no Rio.

Na plateia de 470 lugares, lotada, estudantes de uma escola pública da Rocinha, favela vizinha ao shopping, integrantes do grupo Nós do Morro, do Morro do Vidigal, também perto dali, professores, amigos, amantes de poesia.

Estava no ar o deslumbramento com trechos de Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Eugenio de Andrade, Paulo Leminski e muitos outros, textos de Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Ferreira Gullar, além de citações de canções brasileiras (de Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gonzaguinha, Chico Cesar, Beto Guedes, Roque Ferreira) - tudo dito sem que se fizesse distinção entre escritores e compositores, ou o "erudito" e o popular.

O encantamento de Bethânia era compartilhado por quem estava na plateia, o que os aproximava. Tanto que, terminada a apresentação, dezenas de pessoas se sentiram à vontade para saudá-la junto ao palco, pedindo-lhe fotos, beijando-lhe a mão, fazendo carinho em seus cabelos.

"Bethânia é uma pensadora. Desde 2005 trabalho o repertório dela em sala de aula", saudava a professora de filosofia Vania Correia Pinto, que levou 150 adolescentes do primeiro ao terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública da Barra da Tijuca.

No grupo, estava Fernanda Rozelinne Ferreira, que aos 15 anos se diz leitora de Olavo Bilac. "É difícil de ler, mas eu gosto. Também adoro Cecilia", contava, demonstrando a devida intimidade. "A vontade que dá é sair daqui e ir pra casa ler poemas."

Era o que Bethânia gostaria de ouvir. Ao pisar o palco, descalça, como gosta, ela já reconhecia que o momento que vivemos, por sua velocidade e superficialidade, não é propício à poesia. "Mas é um desafio que me comove", esclareceu, para rapidamente emendar nos versos de Comida, dos Titãs: "A gente não quer só comida/ a gente quer comida, diversão e arte". O espetáculo corre como seus shows, sem pausas: ela emenda um texto no outro, ora tendo uma música no meio (é acompanhada pelo violonista Luiz Brasil e o percussionista Carlos Cesar), ora conversando com a plateia.

Dez textos de Pessoa. Depois de recitar Nestor de Oliveira, seu professor de português na infância, em Santo Amaro da Purificação, contou: "Em suas aulas, aprendia-se a ler poesia. Caetano, também seu aluno, musicou esses versos. Tudo isso aconteceu no interior do Brasil, no Recôncavo Baiano. Eu falo isso para mostrar que é possível uma educação de qualidade nas escolas públicas do Brasil".

O roteiro tem 69 trechos, entre textos falados e cantados. Dez são de Pessoa, o poeta dileto, ao qual Bethânia tece as maiores homenagens. O ponto de partida do projeto foi a série de convites que ela recebeu, ano passado e neste, para fazer leituras em instituições de ensino. Se Portugal é evocado nas palavras de O Tejo É Mais Belo e Marinheiro Sem Mar (este de Sophia de Mello Breyner Andersen), o sertão brasileiro aparece nos caipiras e imagens religiosas de Renato Teixeira (Romaria) e de Luiz Gonzaga (ABC do Sertão), e nos devaneios de amor de Riobaldo por Diadorim (de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa). Bethânia e as Palavras estará em cartaz neste fim de semana e no próximo. Os ingressos, a R$ 80 (sextas e domingos) e R$ 100 (sábados), estão acabando. Para o ano que vem, a cantora pretende tocar com o antropólogo Hermano Vianna - responsável pelo roteiro, junto com o ator e diretor Elias Andreato e ela própria - um blog sobre literatura.

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