Todas as formas doloridas do amor

A cada dia, antes de ir para o trabalho, Maria Dolz observa a felicidade contagiante de um casal que ela, em sua solteirice, julga como perfeito. Aprecia o trato entre eles, o gracejo do marido, a alegria tímida de sua mulher, a energia dos filhos. É um momento revigorador e luminoso, buscado por ela, e cuja repetição amacia sua rotina de editora de livros de autores caprichosos. Mas um dia esse instante aprazível, caloroso, acaba: o homem, o marido perfeito, é brutalmente assassinado. E Maria Dolz, imaginativa e curiosa, se sente viúva de um homem que nunca foi dela. A narradora decide então se aproximar da verdadeira viúva, e trava uma amizade misteriosa (e logo apaixonada) com o melhor amigo do falecido.

Vinicius Jatobá,

21 de setembro de 2012 | 19h00

Esse é o arranque de Os Enamoramentos, o desconcertante novo romance do espanhol Javier Marías. É testamento da imensa pujança de Marías que suceda o complexo e monolítico Seu Rosto Amanhã, convoluto e repleto de espaços, uma pequena obra-prima do despojamento. Mas ainda é um legítimo Marías: a prosa desleixada, espraiada, repleta de distrações, circunavegante, que avança caprichosa, bailando com elucubrações do narrador, que especula e afirma e trafega no seu esforço de recobrar as peripécias da trama. Pouco acontece nas narrativas de Marías - o acontecimento é esse pensar tergiversado. E o prazer em ler Marías é testemunhar essa interioridade, na qual uma mente racional, capturada por uma curiosidade sísmica, pensa o mundo ao seu redor.

A exuberante obra de Marías deve muito a dois modelos confessos. Ele tem a estrutura de solilóquio cartesiano e renitente de Thomas Bernhard, inclusive organizando-se, como no austríaco, em situações que usa como motivos para desenvolver tramos das narrativas, muitos desses motivos repetidos a cada momento com sentidos diferentes. Marías é mais frouxo, mais despojado que Bernhard, e todos seus romances possuem um elemento de violência que falta ao austríaco. Aqui ele difere radicalmente de Bernhard: Marías faz um uso disfarçado do relato investigativo: suas narrativas sempre buscam solucionar um mistério - a morte súbita de uma mulher, uma mancha no soalho de uma biblioteca, o suicídio da primeira esposa de um pai -, e é a exploração desse mistério que encerra a legibilidade de seus romances.

Há de Vladimir Nabokov uma influência mais da ordem do humorismo: do uso do aspecto intelectual das personagens como uma instância que acaba por afastá-los daquilo que mais apreciam. Como o russo, Marías escreve sobre a amorosidade: em Nabokov um crítico se apaixona tanto pela obra de um poeta que anula sua própria vida no esforço de entendê-lo palavra por palavra, um professor de literatura se torna obcecado ao encontrar, na filha da mulher de quem aluga um quarto temporário, a sombra de inocência de uma menina que no passado distante foi seu primeiro amor não consumado e cuja morte repentina crê ser sua responsabilidade. As personagens de Marías - tradutores, professores, intérpretes, editores, escritores - sofrem do mesmo envolvimento por afetividades obcecadas, e é pela geografia do esforço de consumar esses sentimentos que trafegam suas narrativas.

É assim que o narrador do genial Coração Tão Branco, intérprete de conferências, motivado pelo seu casamento recente, acaba por mergulhar no passado obscuro de seu próprio pai, cuja primeira noiva cometeu suicídio; ou que o tradutor em Amanhã na Batalha Pensa em Mim, que presencia a morte repentina de sua própria amante, acaba por se engendrar nos meandros de uma família que não é a sua; e também o professor universitário em Seu Rosto Amanhã, cooptado por um serviço de inteligência inglês, acaba por desvelar segredos sinistros de seu pai durante a Guerra Civil espanhola. O universo das narrativas de Marías é organizado em redor do naufrágio que é saber um segredo espúrio de quem você mais admira e ama. O movimento é duplo: tentar não escutar/enxergar/falar sobre o mistério; e a curiosidade, a tentação magnética da curiosidade, que faz com que avancem na desconstrução daquele mundo antes tão bem aparado, seguro e amoroso.

Nesse sentido, Os Enamoramentos é um livro que condensa e decanta exemplarmente o universo de Marías. Quem leu Todas as Almas, ou os diálogos ao telefone entre o narrador e sua ex-mulher em Seu Rosto Amanhã, sabe o quanto Marías é exuberante quando explora o terreno amoroso - arranca de um terreno tão batido uma série de reflexões e pensamentos inusitados. Os Enamoramentos é um original catálogo de formas de amor, as inúmeras máscaras que comporta. O amor patético de um autor da editorial por sua obra; o amor enlutado e magoado da recém-viúva à deriva; o amor ansioso do melhor amigo do falecido pela viúva; essa forma milagrosa de amor que é a verdadeira amizade. E até mesmo o amor pela violência, pela vingança, e o amor tolo e venenoso da inveja. O quanto uma mulher é capaz de ignorar um segredo espúrio para manter sua paixão arrebatada? Os Enamoramentos explora um solo afetivo comum e faz brotar dele uma visão original e provocante do amor.

Vinicius Jatobá é crítico literário e ficcionista

 

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