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Todas as formas de viver e morrer

O argentino Andrés Neuman, atração da Fliporto, comenta o romance 'Falar Sozinhos'

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2013 | 20h42

No novo livro do argentino Andrés Neuman, três narradores se revezam para contar uma história de despedida. Mario, o pai, está morrendo e decide fazer a última viagem com Lito, seu único filho, na boleia de um caminhão por um país imaginário. O garoto de 10 anos pressente que há algo de errado, mas se distrai com suas fantasias, as aventuras e com o tão sonhado momento a sós com o pai. Elena fica em casa, lendo e se culpando pela forma que encontrou de se preparar para ficar viúva - o sexo. São três narradores, três formas diferentes de contar. Mario fala para um gravador - a fita será entregue oportunamente para o filho. Elena escreve um diário. E Lito só pensa. Sobre 'Falar Sozinhos', Neuman, de 36 anos, que estará na Fliporto, em Olinda, no domingo, respondeu às seguintes perguntas por e-mail.

Em entrevista ao ‘Estado’ em 2011, você disse que aprendeu com o escritor Roberto Bolaño que todos somos moribundos e que é muito conveniente escrever sabendo disso. ‘Falar Sozinhos’ é um diálogo com esse aprendizado, com essa nossa condição moribunda?

Pode-se dizer que nossa mortalidade é uma evidência diante da qual vivemos dissimulando. De tão óbvia e fatal, é misteriosa. Convém à sociedade de produção e consumo fazer com que nos esqueçamos dessa questão porque alguém com plena consciência de sua mortalidade é alguém que não se deixa explorar facilmente. Por isso a escrita e a arte são as formas mais profundas de aprendermos a morrer, a aceitar o envelhecimento e a compreender a perda. Não para nos deprimirmos, mas para nos conscientizarmos do privilégio que é estar vivo. No livro, Elena lê e escreve para recuperar as rédeas de sua vida, para nomear os silêncios que a oprimem. Ocorreu o mesmo comigo enquanto escrevia e ouvia sua voz, que disse muitas coisas que eu nunca tinha me atrevido a dizer. Quanto a Bolaño, ele nunca esteve mais vivo e literariamente ambicioso do que quando sentiu a morte próxima. Quando não há tempo, ele se multiplica. Um fenômeno parecido acontece com o tempo de quem faz o contrário de morrer, que é ter filhos.

Por que contar essa história?

Há muitos anos, meu pai teve um sério problema de saúde e minha mãe cuidou dele até ele se recuperar. Anos depois, ela adoeceu gravemente e foi a vez dele cuidar dela. Mas ela morreu. Assistir a essa inversão de papéis me impressionou profundamente e desde então penso em quão vulneráveis são ambas as partes. A sociedade se descuida dos cuidadores e o mais trágico é que o próprio cuidador tende a sentir que não tem direito de se queixar porque quem sofre é o outro, e assim vai se transformando em um personagem cheio de tensão.

Como foi escrever essa história? A morte te assusta?

Por vezes foi terrível, porém, belo. Obscuro e luminoso. Escrevendo esse livro me senti o tempo todo assustado e comovido. Creio que nenhuma ferida começa a cicatrizar até que ela seja nomeada. Nesse sentido, foi uma escrita libertadora. A morte me assusta, mas também me estimula: é a melhor razão para celebrar a vida. Penso que nossa infância não termina numa determinada idade, mas quando descobrimos nossa própria mortalidade.

Como foi o processo de criação das vozes?

Elas refletem três intimidades totalmente diferentes e representam as três formas que temos de falar sozinhos: o pensamento, a oralidade e a escrita. Me interessava investigar como essas três formas de linguagem se complementavam literariamente. A voz de Mario está cheia de respiração apressada, de urgência, de temor de que cada ponto seja o último de sua vida. A dificuldade de fazer Lito estava relacionada à desproporção que existe entre o vocabulário reduzido e a imaginação infinita de uma criança. Elena tinha toda a linguagem a seu alcance, era culta, mas seu problema era o conflito ético, o pudor, a culpa e o desejo.

Elena anota trechos de livros em seu diário. Você os colecionava ou eles foram selecionados para essa história?

Pensei primeiro na história e depois procurei os livros. Além do sexo, Elena se defende da perda lendo. Ela busca se encontrar em tudo o que lê, como se sua biblioteca fosse um espelho quebrado em mil pedaços. Foi uma experiência interessante porque me pus a pensar em todos os livros que conhecia sobre doença, perda e duelos, e os reli como se eu fosse Elena. O resultado foi fascinante. Seus grifos quase nunca coincidiam com os meus. Assim, posso dizer que graças a ela li esses livros como se fosse a primeira vez.

Literatura é autoajuda?

Depende. Se a autoajuda é uma série de fórmulas rápidas de solução de conflitos, a literatura é exatamente o contrário: nos faz aprofundar o conflito, aceitá-lo, tentar compreendê-lo. Agora, se a autoajuda é um processo intelectual e emocional mediante o qual melhoramos nosso conhecimento sobre nós mesmos e com isso intensificamos nossa relação com o mundo, então toda a literatura, de Tolstoi a Bolaño, seria uma arte de autoajuda. Uma forma de solidão que, milagrosamente, encontra companhias insuspeitas.

Mario levou o filho numa viagem como a que fez com seu pai. A vida se repete nessas pequenas tradições que aceitamos, nas memórias que construímos nos outros porque alguém já fez isso conosco? Ali, Mario se despedia do filho, mas se despedia também de seu pai e do filho que ele já foi?

A paternidade e a maternidade têm, para mim, algo quase de ficção científica, que trabalha em vários tempos e várias gerações de uma só vez. Você educa seu filho e enquanto faz isso dialoga intimamente com seus próprios pais e reeduca a criança que um dia foi. Mario nunca pode se entender com seu pai e acha que ao levar seu filho nessa viagem vai começar a se reconciliar com seu pai. Sem saber, Lito viaja com seu pai e com o fantasma do avô.

Mario não conseguiu deixar sua despedida completa.

Acredito que todas as despedidas são incompletas. Como na nossa vida. Por isso vivemos nos despedindo. E talvez por isso, também, somos viciados em ficção: para nos completarmos, para fabricarmos o tempo e a vida que não teremos.

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