Keith Bedford/Reuters
Keith Bedford/Reuters

Todas as faces de Robert Pattinson

Escolhido para estrelar 'Cosmópolis' por ter um 'grande rosto', ator critica culto à celebridade

FLAVIA GUERRA - O Estado de S.Paulo,

26 de agosto de 2012 | 03h09

"Um filme é sobre um grande rosto na grande tela", disse David Cronenberg em maio, em conversa com o Estado durante o Festival de Cannes. O rosto em questão era de ninguém menos que Robert Pattinson, de 26 anos, estrela de Cosmópolis, novo filme do canadense, que estreia no Brasil em 7 de setembro.

Pattinson é, no mínimo, uma cara nada óbvia para o papel do protagonista de Cosmópolis. Famoso por seu papel na saga teen Crepúsculo, o ator inglês era um dos nomes mais improváveis para estrelar esta epopeia pós-apocalíptica baseada no romance homônimo de Don DeLillo. "Por isso o escolhi. Precisava de um ator com um grande rosto, bom o suficiente para encher uma tela", afirmou o diretor. "É preciso entender que seu personagem é o símbolo vampiresco do capitalismo, mas, ainda assim, é um ser humano real, com história de vida e passado. E a história não é Crepúsculo. É Cosmópolis. O ator tem isso. Não importa se é ídolo pop. Ele é corajoso e não tem medo de fazer um papel controverso, do qual é fácil não gostar, só para não desapontar seus fãs. Não tem medo de ser impopular."

Por impopular entenda-se que em Cosmópolis ele vive Eric Packer, um jovem milionário que circula pelas ruas de Nova York refugiado em seu próprio mundo, ou melhor, em sua limusine branca. O filme retrata um dia na vida deste jovem magnata do setor financeiro que começa seu dia, e sua saga pós-moderna, com um único desejo: cortar o cabelo. Para isso, é obrigado a cruzar a cidade até o bairro onde cresceu, e no qual ainda trabalha o barbeiro que o conhece desde menino. Terá também de encarar uma Manhattan caótica, sacudida por protestos anticapitalistas (qualquer semelhança com Occupy New York não é mera coincidência), em que personagens surreais rondam as ruas, outros entram e saem do microcosmo que a limusine representa.

Cosmópolis era um dos filmes mais aguardados de Cannes e exigiu dedicação e empenho de Pattinson. "É diferente de tudo que já fiz. Minha preparação foi passar semanas no hotel… Sofrendo… Um dia, disse para David: 'Quer falar sobre o filme?' E chegamos à conclusão de que não importava. Começamos a filmar e pronto", contou ao Estado o ator, que tem enfrentando problemas de popularidade que seu personagem jamais sonharia encarar.

Com a recente polêmica sobre a traição de sua (ex)namorada Kristen Stewart, que estrela com ele a saga Crepúsculo, Pattinson passou a ser alvo de artilharia pesada de paparazzi e jornalistas, dos mais populares aos mais célebres, como John Stewart, que o recebeu em seu The Daily Show, em 13 de agosto, com um sorvete. Todos, obviamente, tentam arrancar de Pattinson uma resposta sincera sobre 'como vem se sentindo'. Ele, provando mais uma vez que Cronenberg tem olhos de águia ao escalar seus atores, se mantém impassível e se limitou a dizer que queria ser menos pão-duro e contratar um agente. "Em geral eles preparam os atores para estas perguntas."

Já no programa Good Morning America, da ABC, foi ainda mais 'impopular': "Estou bem. E, sinceramente, o que faço são filmes. E não é por isso que as pessoas têm de se interessar pela minha vida. Não é para isso que dou entrevistas ou venho a programas. É para promover filmes", disparou o ator diante de uma multidão que o observava em plena Broadway. No estúdio da ABC, tudo o que o separava do tumulto que se formava 'no mundo real', era uma fina camada de vidro.

Impossível não associar a cena, e o atual cotidiano de Pattinson, ao dia de seu personagem. Trancado em sua limusine branca, Packer não se relaciona nem se comunica de fato com o mundo, ele cria para si um microcosmo seguro em que pode controlar tudo e todos. Inclusive números e ações que têm impacto na economia mundial. "E agora minha vida e tudo que falo, por algum motivo, por ser famoso ou ator, também passou a ter relevância."

Seria trágico se não fosse cômico o fato de que, meses antes em Cannes, Pattinson comentou que achava que são os banqueiros, e a gente que controla o dinheiro do mundo, que deveria ser seguida pelos paparazzi. Voltou a comentar isso após o escândalo da traição. "Por que esse interesse tão grande por celebridades? Ninguém está interessando na vida pessoal dos que controlam bilhões? Se a gente pusesse a vida deles nas primeiras páginas dos jornais, dispensasse os assessores e relações públicas, estas pessoas começariam a falar por elas mesmas, seriam mais responsáveis por suas ações e palavras."

Por falar em palavras, para o ator, as criadas por DeLillo eram tão poderosas que ele praticamente não mexeu em nada no roteiro. "Não queria mudar nada do livro. Quando faço um filme, muitas vezes acrescento alguma coisa, mas não foi preciso", comentou. "As palavras do romance e roteiro eram tão perfeitas que sentia como se estivesse cantando uma canção e não fazendo um filme. Mexer no que está ótimo é até bobo. Além do mais, não precisava bancar o inteligente. Aliás, atuar não é algo para o qual você precise ser inteligente."

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