Arquivos do Palácio do Principado de Mônaco
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Todas as faces de Grace

A estrela que virou princesa e era chamada de sereníssima ganha exposição com fotos, filmes, vestidos e objetos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2011 | 00h00

Sua carreira em Hollywood não foi das mais extensas. Resume-se a pouco mais de uma dezena de filmes e todos realizados num período muito curto, entre 1951 e 56, quando abandonou, em definitivo, o cinema. Não foi preciso mais do que isso para que se esculpisse o mito de Grace Kelly. De quinta, dia 5, até 10 de julho, o Museu de Arte Brasileira da Faap vai abrigar a exposição Os Anos Grace Kelly, Princesa de Mônaco. Com curadoria de Frédéric Mitterrand, o evento, inaugurado em 2007 na França, reúne cerca de 900 objetos que revisitam a vida da estrela e princesa. São fotos, filmes, vestidos, quadros, cartas.

Grace era missivista contumaz. Raras cartas são redigidas do próprio punho. A maioria é escrita à máquina, mas trazem a assinatura inconfundível. Uma dessas cartas é uma verdadeira preciosidade - Grace escreve a Alfred Hitchcock, que lhe propusera voltar ao cinema fazendo a protagonista de Marnie. Ela ficou tentada, mas a natureza mórbida e perversa do papel, somada a razões de Estado, a impediram de aceitar. Grace diz tudo sem nada revelar ao mestre do suspense. Na despedida, define-se como "a mais devotada de suas vacas" (the most devoted of your cows).

Ela tinha humor, e não o perdeu face ao formalismo da vida na corte. Ficou famosa a frase de Alfred Hitchcock, que se referiu certa vez aos atores como "gado". A autoassumida "vaca" foi a mais perfeita representação das loiras frias que atraíam o grande diretor. Hitchcock gostava de loiras - a nórdica Ingrid Bergman foi outra - que não dissimilavam uma natureza ardente, inclusive (ou principalmente) sexual, por debaixo de uma aparência gélida. O ideal de mulher de Hitchcock, ele confidenciou ao discípulo François Truffaut, seria aquela que entraria distante no elevador com um homem. Mal as portas se fechassem, ela saltaria sobre o sujeito e correria o zíper da calça dele. O resto fica por conta da imaginação do leitor.

Grace Kelly nasceu numa família abastada da Filadélfia, em 1929. Morreu num acidente de carro, em Mônaco, em 1982, prestes a completar 43 anos. O mundo nunca foi contemplado com a imagem de uma Grace Kelly curvada pelos anos, por melhor que pudesse ter envelhecido. Ela permanece eternamente jovem no imaginário de seus fãs. Por isso mesmo, é um ícone. Embora tenha feito somente 11 filmes, Grace teve a sorte de trabalhar com diretores importantes - Henry Hathaway, Fred Zinnemann, John Ford e, claro, Alfred Hitchcock. Foram três filmes com ele - Disque M para Matar, Janela Indiscreta e Ladrão de Casaca. O último foi filmado na Côte d"Azur, em Mônaco. Sob os auspícios de Hitchcock, Grace conheceu o príncipe Rainier. Casaram-se.

Em Hollywood, por seu porte glacial, ela já era considerada uma princesa. A realidade seguiu a ficção e ela virou princesa de verdade. Representou o papel até o fim. Biografias não autorizadas dizem que a jovem Grace desembarcou em Hollywood eternamente no cio, passando em revista todo o elenco masculino com quem trabalhou. Como princesa, teria sido infeliz, sempre insatisfeita, mas são conjecturas. Grace nunca perdeu a classe.

Embora tenha recebido o Oscar - por Amar É Sofrer, em 1954 -, há controvérsia de que tenha sido verdadeiramente uma atriz. Com raras exceções, nem para Hitchcock, Grace não "representava". Bastava-lhe bancar a estátua diante da câmera. A máquina, apaixonada, se encarregava do resto. Os semiólogos gostam de analisar a propriedade de certos rostos esculturais. O de Garbo, por exemplo. Ela não precisava fazer nada em cena para que o espectador lesse tudo no seu rosto de esfinge. Grace, um pouco menos, era assim. As poses principescas colaram à realidade e todo mundo a aceitou no papel de princesa de Mônaco.

A exposição divide-se em 14 salas, cada uma dedicada a um momento. Filadélfia, Nova York, Hollywood... Vêm depois O Reino Encantado, Casamento - qualquer analogia com o vestido que Kate Middleton usou anteontem não é mera coincidência -, Baile, Maternidade, Glamour. A última etapa é Real, de realeza. Pensando bem, Grace foi, sim, uma grande atriz. Ninguém encarnou como ela - Lady Di, talvez - um ideal de beleza e distinção que nós, plebeus, gostamos de atribuir a princesas e rainhas.

OS ANOS GRACE KELLY, PRINCESA DE MÔNACO

MAB-Faap. Rua Alagoas, 903, telefone 3662-7200

10h/20h (sáb., dom. e fer., 13h/17h; fecha 2ª). Grátis. Abertura 5ª. Até 10/7    

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