Todas as Dianes

Um passeio pela vida da 'rainha do vestido-envelope', que, após abrir loja no Brasil, conta trajetória em exposição

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

Manhã de quinta em São Paulo. No 9.º andar do Shopping Iguatemi, a diva e estilista Diane von Furstenberg parece capaz de fazer a vida da metrópole mais glamourosa ao percorrer os corredores do Espaço de Exposições do prédio na companhia de estudantes de moda e alguns fãs privilegiados. A cada passo, a plateia se depara com uma cena marcante da carreira e da vida da estilista que se tornou mundialmente famosa por inventar o "vestido-envelope". Todos estão ali para um passeio exclusivo por Journey of a Dress, mostra que repassa a trajetória de uma das mais poderosas mulheres da moda mundial. "Fala de um vestido que criei, mas também de toda minha vida por intermédio da minha criação e de como fui retratada não só pela imprensa mas também por amigos artistas", explicava ela, na exposição que cobre desde seus primeiros anos de fama até as últimas criações para a New York Fashion Week.

Mais que a jornada de um vestido (tradução do nome em inglês da mostra), a retrospectiva abre para os brasileiros a oportunidade de conhecer a figura que é uma espécie de metonímia da "mulher moderna". "Sempre soube a mulher que queria me tornar. Poderia dizer que por muito tempo quis ser uma mulher em um corpo de homem", comenta a estilista em conversa com o Estado após o passeio. É, no mínimo, uma contradição interessante ouvir essa senhora, cujas iniciais DVF são sinônimo de feminilidade, entregar o ouro assim. "Na verdade, toda mulher é forte e não precisa ter corpo de homem para realizar nada na vida. Aprendi isso com os anos. E aprendi que minha função no mundo é criar peças bonitas que deixam as mulheres mais bonitas, poderosas e confiantes."

Em Journey of a Dress é possível entender em imagens e decotes que poder é este. "A primeira parte é a American Dream e fala de quando era garota, quando cheguei aos Estados Unidos, e de toda a alegria e loucura que era ser jovem nos anos 70. Foi quando criei o wrap-dress", continua.

Para resumir a importância que um simples vestido traspassado de jérsei teve para a história da emancipação feminina, basta recorrer aos números. Em 1976, Diane, que criou o "vestido-envelope" (ou wrap-dress, o vestido que embrulha a mulher) sem fazer ideia da força que ele ganharia, vendeu quatro milhões de peças no mundo e foi capa da Newsweek. "Quando o desenhei, pensei em algo que fosse sexy, elegante, feminino e, ao mesmo tempo, prático e fácil de vestir. A mulher precisava de tempo para pensar em outras coisas, em vez de só se produzir", conta Didi, como os netos a chamam.

Diane não só se orgulha de ser avó dedicada como acha que o tempo a fez uma mulher mais feliz, capaz de equilibrar a vida familiar com a profissional sem descer do salto. Não por acaso, a última parte da mostra é Working Girl. "A mulher que trabalha não precisa estar descuidada. Praticidade continua a palavra de ordem em dias em que temos pouco tempo para estar lindas e prontas."

Ela sabe do que fala. Na correria para se preparar para o "press day", vestiu seu look do dia no avesso e só se deu conta no passeio. "De onde eu vim, diz o ditado que vestir a roupa ao contrário traz dinheiro."

Procede. Diane veio da Bélgica. Filha de um homem de negócios russo e uma sobrevivente de Auschwitz, teve uma infância burguesa e foi educada em caros colégios internos da Europa. Quando cursava a universidade, na Suíça, conheceu seu primeiro marido, o príncipe Egon von Furstenberg. Filho mais velho de um príncipe alemão e de uma herdeira da Fiat, ele levou Diane para morar em Nova York. "Vivíamos o auge do sonho americano. Egon tinha uma vida agitadíssima e eu o acompanhava. Conheci toda a elite da cidade, mas não tinha vocação para esposa. Queria ser independente e comecei a estudar moda, a criar minhas peças."

Famosos. Os croquis que marcaram época, as cenas das badaladas noites no lendário Studio 54 de NY, os quadros pintados pelos amigos famosos, os vestidos de noite que nasceram para dar brilho a esta mulher badalada e contemporânea também podem ser conferidos na Journey of a Dress.

A contrapartida da vida agitada e da ascensão meteórica também está ilustrada. "A segunda parte mostra os anos 90, quando voltei para a Europa, onde minha grife enfrentou problemas e tive um câncer na língua", continua Diane. "Foi só depois da doença, que tive porque tinha tanta coisa para falar e não conseguia, que aprendi a ser uma mulher feminina e poderosa."

Poderosa ela é de fato. Hoje, a DVF, que entrou em crise após a saturação do vestido-envelope, é marca presente em 71 países, com 32 lojas próprias em todo o mundo. O Brasil, onde Diane abriu a 32.ª em março, no mesmo Iguatemi, era antigo sonho da estilista. Para comemorar, criou uma coleção específica: Her Name is Rio... "Adoro as brasileiras. Elas amam a si mesmas e têm uma vitalidade incrível, que combina com a DVF. Acho que o Brasil não é só o país onde o futuro será melhor mas também mais divertido."

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