Todas as agulhas de María Dueñas

Autora espanhola do romance O Tempo Entre Costuras falou do seu processo de criação em debate na terça-feira

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

A escritora María Dueñas desembarcou pela primeira vez no Brasil, na segunda pela manhã, para menos de 48 horas em solo paulistano. Vinha da Colômbia, que ela também não conhecia, e daqui seguiu, ontem mesmo, para a Argentina. A rotina tem sido assim desde que a espanhola de 46 anos interrompeu, faz alguns meses, a carreira acadêmica à qual vinha se dedicando nas últimas duas décadas. Não havia mais modo de conciliar as aulas de filologia inglesa que ministrava na Universidade de Murcia e a repercussão de O Tempo Entre Costuras, romance que já passou as 550 mil cópias vendidas na Espanha.

A autora ainda não é conhecida por aqui, assim como não o era há pouco mais de um ano no país de origem - onde hoje dificilmente o nome Maria Dueñas passaria despercebido. Quando os 3 mil exemplares da primeira tiragem de seu romance de estreia chegaram às livrarias, em junho de 2009, não houve nenhum alarde, nenhuma divulgação. A crítica especializada parou para prestar atenção apenas quando elogios propagados por blogs e redes sociais já tinham colaborado para o esgotamento da primeira, da segunda, da terceira edição. O livro está hoje na 25ª. "Não sou uma best-seller convencional", admitiu a autora por telefone ao Estado, no sábado, ainda na Colômbia. "Tenho uma gratidão infinita aos leitores que fizeram meu trabalho ficar conhecido."

Na noite de terça-feira, no auditório do Instituto Cervantes, em São Paulo, ela falou sobre essas impressões e sobre a obra, em debate com a historiadora Mary del Priore mediado pela diretora executiva do Estado Laura Greenhalgh. Contou que, assim como a trajetória depois da publicação escapou por completo do que havia imaginado, não lhe foi fácil controlar o processo de feitura do romance. "Tinha ouvido dizer de outros escritores e não acreditava, mas vi que era verdade: os personagens se vão das mãos, fazem seus próprios caminhos", descreveu.

Cenário. O que María Dueñas tinha a princípio, quatro anos atrás, era apenas a "imagem de um entorno" - o Protetorado Espanhol do Marrocos, fundado após acordo de 1912 com a França (que também teria seu território na África) e que perdurou até 1956, quando o Marrocos conseguiu sua independência. "Era um cenário muito ligado à Espanha e que, hoje, está esquecido", diz a autora, que herdou da mãe, criada naquela região, as pistas iniciais para o romance. Às lembranças familiares María Dueñas somou investigações convencionais, por meio de viagens e documentos, que a levaram a dois personagens reais, o militar e político espanhol Juan Luis Beigbeder, alto comissionário no Marrocos de 1937 a 1939, e sua amante, a espiã inglesa Rosalinda Fox.

Eles seriam os nomes centrais do romance, mas María Dueñas sentiu um "certo pudor" em ficcionalizar duas existências "tão recentes", com herdeiros ainda vivos. Daí que surgiu a fictícia Sira Quiroga, jovem costureira que, por uma série de acasos, troca a tranquilidade de uma vida em Madri, ao lado da mãe e do marido, pelas incertezas no protetorado, onde se aproxima do casal histórico e se vê envolvida com o serviço de espionagem britânica.

A criação de Sira acabou transformando por completo o tom da história. Embora inclua descrições detalhadas das ruas, das moradias e dos costumes em Tetuán, cidade marroquina onde os espanhóis se concentraram, o romance tornou-se uma espécie de biografia ficcional, seguindo os passos e as impressões da costureira. "Minha intenção era resgatar aquele momento histórico, mas aos leitores passou a interessar mais o lado humano da narrativa", conta.

Casada, mãe de dois filhos adolescentes, María Dueñas não gosta da ideia de que tenha feito um livro para mulheres, ainda que elas estejam entre as maiores admiradoras de seu trabalho. "O Tempo Entre Costuras já é, em si, um nome feminino... E ainda com aquele desenho da moça na capa", admite. "Mas nunca tive em mente o objetivo de escrever para mulheres. O que acontece é que não tentei neutralizar meu ponto de vista feminino. Isso é visível até no fato de eu ter escolhido uma protagonista mulher. Mas as respostas que tenho são de um público bastante aberto."

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