"Toda Nudez Será Castigada" estréia no Sesc

No seu estilo bombástico, o dramaturgo carioca Nélson Rodrigues deu um conselho aos diretores e atores interessados em encenar suas peças: sejam burros! Uma queixa contra as montagens "falsamente" criativas, nas quais o texto vira mero pretexto para o exercício egóico de diretores e atores pretensamente "inteligentes".A prevenção do dramaturgo contra a criatividade vazia é compartilhada pelo ator Hélio Cícero. "Essa pretensa criatividade é uma forma de fugir da raia; o verdadeiro diretor é o que consegue realizar o que está no texto", diz Cícero. Esse critério - fidelidade ao autor - orienta o trabalho do elenco e da diretora Cibele Forjaz para a montagem de Toda Nudez Será Castigada, que estréia nesta sexta no Sesc Belenzinho. E estimulou Hélio Cícero a aceitar o convite para viver o personagem Herculano, um viúvo que pauta sua vida por rígidos códigos familiares e religiosos, que provoca uma tragédia ao envolver-se com a prostituta Geni, interpretada pela atriz Leona Cavalli.Um criterioso estudo da dramaturgia rodriguiana precedeu a montagem. Leituras dramáticas, oficinas, leituras paralelas de crônicas e ensaios sobre o autor, além de palestras do crítico Sábato Magaldi, do escritor Ruy Castro e de familiares do dramaturgo, entre outros, fizeram parte da intensa preparação da equipe técnica e do elenco de oito atores.Preparação imprescindível para compreender o que "está no texto" e levar o universo do autor à cena sem abrir mão da leitura inteligente. Fidelidade com criatividade fundamentada é o que promete essa encenação de Toda Nudez, na qual público e atores acomodam-se numa espécie de mandala - uma estrutura circular - onde as cenas acontecem quase que simultaneamente, sem que haja troca de cenários ou tempos mortos.Todo o elenco permanece em cena o tempo todo, o que permite valorizar ainda mais os diálogos vigorosos, rápidos e sincopados, o ritmo ágil e nervoso característico do autor, que cria situações aparentemente cotidianas, mas que prenunciam a explosão da tragédia final. A concepção inspira-se na estrutura circular da trama. "Tudo começa e termina com a voz de Geni gravada numa fita ouvida por Herculano", observa Cibele. "A primeira fala de Geni na gravação - ´Herculano, aqui quem te fala é uma morta´ - antecipa a tragédia".A partir da narração de Geni, Herculano vai recriando a história e desloca-se do centro para quatro vértices desse triângulo, cenários dos outros personagens: Serginho, interpretado por Vadim Nikitin, o casto e virgem filho de Herculano, por quem Geni acabará por apaixonar-se; o endividado e inescrupuloso Patrício (Gustavo Machado), irmão de Herculano, que provoca o encontro do viúvo com Geni com o intuito de chantageá-lo e, finalmente, as três tias solteironas interpretadas por Mila Ribeiro, Tatiana Thomé e Déborah Lobo."À primeira vista, essa estrutura circular parece uma armadilha para o ator, cercado pelo público por todos os lados" comenta Cícero. Mas a prática mostrou o contrário. "Contribui para uma concentração muito interessante", afirma. "Acho que essa concepção ressalta esse limite entre o cotidiano e o mítico - a presença do universal no específico - presente na dramaturgia do Nélson", argumenta Cibele. Outro elemento favorece a montagem, dessa vez relacionado à escolha do elenco. "Eu e Hélio temos estilos muito diferentes, o que propicia uma química muito interessante, muito semelhante à de Geni e Herculano", diz Leona. "Eu sempre parto do coração para construir meus personagens, enquanto o Hélio é um ator com uma formação técnica mais rigorosa".Cícero atuou sob direção de Antunes Filho, enquanto Leona se tornou uma das atrizes prediletas do diretor José Celso Martinez Corrêa. "Aprendi a importância do gesto preciso, aprendi a conter meu furor interno", afirma o ator. "Conheço bem a dicotomia de Herculano, um personagem cindido pelo conflito instinto e religião, emoção e razão", afirma Cícero. "Geni não tem essa divisão interna, ela se entrega inteira, ainda que isso a leve à autodestruição", conclui Leona."Toda Nudez Será Castigada". Tragédia. De Nélson Rodrigues. Direção Cibele Forjaz. Duração: 70 minutos. Sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 12. Sesc Belenzinho. Avenida Álvaro Ramos, 991, tel.: 6096-8143. Até 30/7

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